sábado, 16 de maio de 2026

Solenidade da Ascensão do Senhor - Ano A

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20).

 

Queridos irmãos e irmãs, estamos diante de um mistério que liga a terra aos céus, e o nosso coração a Deus. Esse mistério está intimamente unido aos mistérios da Ressurreição e Pentecostes, e é justamente por isso que a liturgia de hoje nos convida a olhar, contemplar, e ao mesmo tempo, a tocar os céus diante do significado que a Ascensão do Senhor tem para nós, pois para onde o Ressuscitado se ascendeu é a nossa morada.

 

Ao celebrarmos a solenidade de hoje, celebramos o dia em que o Senhor, vivo e ressuscitado, voltou para o Pai em sua glória; por isso hoje o Tempo Pascal se conclui. Mas, essa celebração não é uma despedida e nem um “até logo”; porque fazemos memória do “estar” ou “permanecer” do Senhor todos os dias entre nós, que no evangelho deste domingo (Mt 28, 16-20) se alude. E é em virtude desse “estar” que gostaria de vos escrever esta reflexão dominical.

 

No evangelho Jesus assegura aos seus discípulos o seu estado de permanência entre eles através destas palavras: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, o último versículo do evangelho deste domingo nos leva a refletir a respeito da permanência de Jesus após a sua ressurreição com os seus. Poderíamos nos questionar: – Se Jesus cumpriu a sua missão anunciando o Reino de Deus, sofreu a paixão, foi crucificado e ressuscitou no terceiro dia, qual seria o motivo Dele permanecer por cerca de quarenta dias e ainda afirmar que estaria com os seus discípulos até ao fim do mundo?

 

  A análise bíblica em seu aspecto linguístico nos possibilita refletir o sentido do “estar” do Senhor com os seus. O verbo grego εἰμι (sou/estou) deixa claro que é próprio de Jesus “ser” e “estar”; estes termos são atribuições humanas, mas antes divinas, visto que é de Deus que provém todo o ser e existir. E, embora o texto bíblico-litúrgico do evangelho traz a tradução do “estar” para “estarei”: “Eis que eu estarei […]. (Mt 28, 20); gostaria de considerar a tradução do texto bíblico em grego “estou” para demonstrar que a afirmação do Senhor aos seus discípulos a partir deste verbo indica que Ele não estaria no futuro, porque Jesus Cristo continua estando com eles todos os dias na potencialidade de seu Espírito até ao fim do mundo.

 

Meus irmãos e minhas irmãs, a παρουσία do Senhor (transliterada em: parousia) é realidade presente e não futura. Isto fica muito claro quando conseguimos compreender o seu sentido através do prefixo pará que significa “ao lado”, e do sufixo ousia que expressa o “ser”, isto é, a essência, e ainda o “estado do ser”, como por exemplo, “estou”. Portanto, disso devemos ter a consciência e acreditar que o mesmo Jesus que pregou o Reino, curou, foi morto e ressuscitou está constantemente ao lado dos seus e ao nosso lado também, e, não há dúvidas de que vivemos na sua presença.

 

Para compreendermos a presença do Senhor é necessário voltar o nosso coração para o mistério que celebraremos no próximo domingo. É o Pentecostes que nos garantirá a permanência de Jesus no meio de nós, e isto nos consola e nos revigora. Diante disto, como é bom sabermos que hoje Jesus subiu aos céus, mas antes em seu estado de permanecia desejou fortalecer a fé daqueles que estavam sempre próximos ao explicou-lhes o sentido próprio da missão apostólica. É por essa razão que São Paulo na segunda leitura (Ef 1, 17-23) afirma: “O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos e fê-lo sentar-se à sua direita nos céus. Ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (vv. 20-23). E estando acima de tudo era preciso que se ascendesse aos céus para junto do Pai, e com Ele nos reconciliasse.

 

Pelas palavras do apóstolo podemos compreender ainda a eficácia do mistério da Ascensão. Dela a Igreja apostólica, encabeçada por Jesus Cristo e constituída de seus membros que somos nós, recebeu a sua missão, e os discípulos agora reconhecidos como apóstolos compreenderam o seu papel através do mandato no evangelho: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (Mt 28, 19-20).

 

Na primeira leitura de hoje (At 1,1-11) se encontra um mandato semelhante ao do Senhor no evangelho, porque se faz escutar o forte apelo de dois homens vestidos de branco, que a tradição afirma ser anjos de Deus: “Homens da Galiléia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (v. 11).

 

A mesma exortação recebida pelos apóstolos hoje é dirigida a nós que por meio do nosso apostolado somos convidados e convocados a anunciar as maravilhas do Senhor. Se hoje ao subir aos céus Ele cumpriu a sua missão, cabe a nós, enquanto membros de seu corpo que é a Igreja, acreditar que a nossa missão de pregar a mensagem do evangelho começa hoje. Todavia, de modo muito mais efusivo no próximo domingo seremos como os apóstolos, enviados e amparados pelo Espírito Santo no anúncio e testemunho da nossa fé.

 

Por fim, que a oração da coleta deste domingo seja a nossa oração nesta semana: “Ó Deus, na presença dos Apóstolos, vosso Filho hoje subiu ao céu. Concedei, nós vos pedimos, que, segundo a sua promessa, ele esteja sempre conosco na terra, e nós mereçamos viver com ele no céu. Ele, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”. Amém!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


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