Caríssimos irmãos e irmãs, neste dia em que celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, gostaria de iniciar esta minha reflexão dominical citando uma afirmação da renomada teóloga Maria Clara Bingemer que certa vez disse: “No chão da vida brota a confirmação da certeza maior que alimenta a nossa fé: Deus é Trindade –, Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é comunhão de Três Pessoas que se amam infinita e eternamente”.
Plasmando a comunhão perfeita e íntima de Deus que nos provoca à comunhão com Ele e com os irmãos, hoje por meio desta solene liturgia nós somos convidados a adentrar ao mistério comunicador e comunicante de Deus uno e trino. Um mistério que é eterno e digno de fé, capaz de gerar em nós a verdadeira comunhão, porque Deus é, sempre foi e será, acima de todas as concepções que podemos possuir a Seu respeito, comunhão. Por essa razão, a liturgia nos convoca a olhar para as realidades da vida; aquelas que compõem a nossa história, uma vez que Deus, como oferta de amor e graça se autocomunicou revelando-se a todos nós, pois fomos por meio desta revelação alcançados e salvos por Ele, em seu Filho Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo (Rahner).
Na primeira leitura (Ex 34, 4b-6.8-9) nos deparamos com o mandato de Deus que fez Moisés levantar-se durante a noite e subir ao monte Sinai carregando consigo duas tábuas de pedra. Estando Moisés no monte, o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com ele e, enquanto o Senhor passava diante dele, Moisés invocou (gritou) o nome do Senhor: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (v. 6). Aqui um detalhe nos chama a atenção: Moisés invocou e gritou o nome de Deus!
Na mentalidade semítica invocar o nome de alguém, como por exemplo o nome de Deus, denota duas motivações, a primeira delas consiste em reconhecer a própria essência, caráter e autoridade da pessoa; por isso que muitas vezes, conforme está nas Sagradas Escrituras, o povo não mencionava o nome de Deus, apenas em sua forma mais abreviada, como “YHWH”. A segunda motivação baseia-se em admitir que quem é invocado é maior que aquele que o chama; por isso, este assumia uma postura de servo.
Considerando a segunda motivação, nos últimos versículos da primeira leitura, o autor sagrado faz questão de assinalar que “imediatamente, Moisés curvou-se até o chão e, prostrado por terra, disse: ‘Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua’” (Ex 34, 9). A nossa atenção nesse momento se volta para o gesto de curvar-se até o chão e ao pedido de Moisés: “caminha conosco”.
– Por que Moisés suplicou para que Deus caminhasse com eles?
Meus irmãos e minhas irmãs, Moisés era um servo de Deus, por isso temia e reconhecia que Ele era o seu Senhor. Moisés vendo as más atitudes e as más condutas daquele povo, a única procedência que lhe cabia seria interceder e suplicar ao Senhor de todo o coração que caminhasse com o seu povo, ou seja, que fizesse o caminho com eles; caminho este que parecia não ter fim, pois a terra prometida parecia estar tão distante e quase impossível de ser alcançada.
O servo de Deus sabia que o “caminhar” do Senhor na vida deles não seria sem direção e tampouco seria realizado sozinho, ao contrário, Moisés por crer verdadeiramente em Deus compreendia que o caminho deveria ser feito sempre vislumbrando o propósito de Deus que os chamava a caminhar com Ele. Aqui vemos “a confirmação da certeza maior que alimenta a nossa fé”: Deus é! E por ser, Ele estaria constantemente na presença deles.
Caros irmãos e irmãs, trazendo essa perspectiva do Êxodo para a nossa realidade e para nossa vida de fé, devemos tirar de lição que é necessário cultivar em nós a certeza de que Deus Trindade caminha conosco, mesmo quando nos sentimos sozinhos, perdidos e sem rumo, porque estamos a todo instante na presença Dele, e consequentemente Ele na nossa.
Na segunda leitura (2Cor 13, 11-13) encontramos as palavras de ânimo e encorajamento do apóstolo à comunidade de Corinto. Paulo deixa claro que viver na alegria, trabalhar no aperfeiçoamento, encorajar um ao outro, cultivar a concórdia, viver em paz é sinal de estar na graça de Jesus Cristo, no amor de Deus e na comunhão do Espírito Santo.
Irmãos e irmãs, o apóstolo propõe à sua comunidade o caminho de resposta a Deus. Se na primeira leitura o pedido de Moisés foi para que Deus tomasse a iniciativa de caminhar com eles. Nesse momento, por meio das palavras de Paulo notamos que existem passos que podem nos fazer corresponder a iniciativa de Deus e nos levar até Ele.
– Quais são os passos?
Os passos são: alegria, aperfeiçoamento, encorajamento, concórdia e paz. Esse é o segredo para se viver em comunhão com Deus e em comunidade, uma vez que é na realização desses passos que a presença de Deus Trindade se torna mais visível na nossa história e nas diversas situações de nossa vida.
Com evangelho (Jo 3, 16-18) devemos nos ater à explicação do mistério da comunhão de Deus. O evangelista enfatiza que “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v. 16). Aqui meus irmãos e irmãs, encontramos a mais sublime resposta de Deus para nós. O caminho e o caminhar Dele não é senão o seu Filho Jesus Cristo. É o Filho a resposta para nós, porque no Novo Testamento, especialmente através desse evangelho dominical fica claro que não se deve apenas invocar ou gritar o nome de Deus, mas antes é preciso crer verdadeiramente no nome de seu Filho unigênito. E sem sombra de dúvidas, é o Espírito Santo quem nos leva a crer, como refletimos na liturgia do domingo passado.
Embora a nossa linguagem seja limitada para explicar e comparar o mistério da Santíssima Trindade, eu gostaria concluir esta reflexão dominical contando-lhes uma pequena história elucidativa:
O Pai, o Filho e o Espírito Santo, estavam partilhando do banquete da perfeita comunhão no céu. Mas, ao olhar para a Terra, o Pai viu o sofrimento dos seus filhos. Viu que andavam longe da alegria, sem coragem, sem concórdia e sem paz. Ele, vendo o abismo da solidão e movido por uma compaixão infinita, então indagou:
– Quem de nós descerá para resgatar a comunhão perdida e curar as feridas do mundo?
O Filho, fixando os seus olhos nos olhos do Pai, respondeu sem hesitar:
– Eu irei, Pai. E fazendo-Me carne entregarei a minha própria vida para reescrever a história deles, alcançando e salvando a todos.
E o Espírito Santo, contemplando a entrega sublime do Filho, declarou:
– Eu irei com Ele. Serei o sopro de vida no coração de cada um deles, revelando em cada coração humano o Teu amor-comunhão.
Queridos irmãos e irmãs, Deus Trindade veio, vem e sempre virá em nosso auxílio. Basta que cremos nesse mistério de amor e nos deixemos ser tocados por Ele, a fim de que vivamos em comunhão com Deus para vivermos em comunhão entre nós, pois esse é o maior desejo da Santíssima Trindade.
Que estejamos sempre unidos em nome de Deus que é: Pai, e Filho e Espírito Santo!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)