sábado, 30 de maio de 2026

Solenidade da Santíssima Trindade – Ano A

       Caríssimos irmãos e irmãs, neste dia em que celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, gostaria de iniciar esta minha reflexão dominical citando uma afirmação da renomada teóloga Maria Clara Bingemer que certa vez disse: “No chão da vida brota a confirmação da certeza maior que alimenta a nossa fé: Deus é Trindade –, Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é comunhão de Três Pessoas que se amam infinita e eternamente”.

 

Plasmando a comunhão perfeita e íntima de Deus que nos provoca à comunhão com Ele e com os irmãos, hoje por meio desta solene liturgia nós somos convidados a adentrar ao mistério comunicador e comunicante de Deus uno e trino. Um mistério que é eterno e digno de fé, capaz de gerar em nós a verdadeira comunhão, porque Deus é, sempre foi e será, acima de todas as concepções que podemos possuir a Seu respeito, comunhão. Por essa razão, a liturgia nos convoca a olhar para as realidades da vida; aquelas que compõem a nossa história, uma vez que Deus, como oferta de amor e graça se autocomunicou revelando-se a todos nós, pois fomos por meio desta revelação alcançados e salvos por Ele, em seu Filho Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo (Rahner).

 

Na primeira leitura (Ex 34, 4b-6.8-9) nos deparamos com o mandato de Deus que fez Moisés levantar-se durante a noite e subir ao monte Sinai carregando consigo duas tábuas de pedra. Estando Moisés no monte, o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com ele e, enquanto o Senhor passava diante dele, Moisés invocou (gritou) o nome do Senhor: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (v. 6). Aqui um detalhe nos chama a atenção: Moisés invocou e gritou o nome de Deus!

 

Na mentalidade semítica invocar o nome de alguém, como por exemplo o nome de Deus, denota duas motivações, a primeira delas consiste em reconhecer a própria essência, caráter e autoridade da pessoa; por isso que muitas vezes, conforme está nas Sagradas Escrituras, o povo não mencionava o nome de Deus, apenas em sua forma mais abreviada, como “YHWH”. A segunda motivação baseia-se em admitir que quem é invocado é maior que aquele que o chama; por isso, este assumia uma postura de servo.

 

Considerando a segunda motivação, nos últimos versículos da primeira leitura, o autor sagrado faz questão de assinalar que “imediatamente, Moisés curvou-se até o chão e, prostrado por terra, disse: ‘Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua’” (Ex 34, 9). A nossa atenção nesse momento se volta para o gesto de curvar-se até o chão e ao pedido de Moisés: “caminha conosco”.

 

Por que Moisés suplicou para que Deus caminhasse com eles?

 

Meus irmãos e minhas irmãs, Moisés era um servo de Deus, por isso temia e reconhecia que Ele era o seu Senhor. Moisés vendo as más atitudes e as más condutas daquele povo, a única procedência que lhe cabia seria interceder e suplicar ao Senhor de todo o coração que caminhasse com o seu povo, ou seja, que fizesse o caminho com eles; caminho este que parecia não ter fim, pois a terra prometida parecia estar tão distante e quase impossível de ser alcançada.

 

O servo de Deus sabia que o “caminhar” do Senhor na vida deles não seria sem direção e tampouco seria realizado sozinho, ao contrário, Moisés por crer verdadeiramente em Deus compreendia que o caminho deveria ser feito sempre vislumbrando o propósito de Deus que os chamava a caminhar com Ele. Aqui vemos “a confirmação da certeza maior que alimenta a nossa fé”: Deus é! E por ser, Ele estaria constantemente na presença deles.

 

Caros irmãos e irmãs, trazendo essa perspectiva do Êxodo para a nossa realidade e para nossa vida de fé, devemos tirar de lição que é necessário cultivar em nós a certeza de que Deus Trindade caminha conosco, mesmo quando nos sentimos sozinhos, perdidos e sem rumo, porque estamos a todo instante na presença Dele, e consequentemente Ele na nossa.

 

Na segunda leitura (2Cor 13, 11-13) encontramos as palavras de ânimo e encorajamento do apóstolo à comunidade de Corinto. Paulo deixa claro que viver na alegria, trabalhar no aperfeiçoamento, encorajar um ao outro, cultivar a concórdia, viver em paz é sinal de estar na graça de Jesus Cristo, no amor de Deus e na comunhão do Espírito Santo.

 

Irmãos e irmãs, o apóstolo propõe à sua comunidade o caminho de resposta a Deus. Se na primeira leitura o pedido de Moisés foi para que Deus tomasse a iniciativa de caminhar com eles. Nesse momento, por meio das palavras de Paulo notamos que existem passos que podem nos fazer corresponder a iniciativa de Deus e nos levar até Ele.

 

 – Quais são os passos?

 

Os passos são: alegria, aperfeiçoamento, encorajamento, concórdia e paz. Esse é o segredo para se viver em comunhão com Deus e em comunidade, uma vez que é na realização desses passos que a presença de Deus Trindade se torna mais visível na nossa história e nas diversas situações de nossa vida.

 

Com evangelho (Jo 3, 16-18) devemos nos ater à explicação do mistério da comunhão de Deus. O evangelista enfatiza que “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v. 16). Aqui meus irmãos e irmãs, encontramos a mais sublime resposta de Deus para nós. O caminho e o caminhar Dele não é senão o seu Filho Jesus Cristo. É o Filho a resposta para nós, porque no Novo Testamento, especialmente através desse evangelho dominical fica claro que não se deve apenas invocar ou gritar o nome de Deus, mas antes é preciso crer verdadeiramente no nome de seu Filho unigênito. E sem sombra de dúvidas, é o Espírito Santo quem nos leva a crer, como refletimos na liturgia do domingo passado.

 

Embora a nossa linguagem seja limitada para explicar e comparar o mistério da Santíssima Trindade, eu gostaria concluir esta reflexão dominical contando-lhes uma pequena história elucidativa:

 

O Pai, o Filho e o Espírito Santo, estavam partilhando do banquete da perfeita comunhão no céu. Mas, ao olhar para a Terra, o Pai viu o sofrimento dos seus filhos. Viu que andavam longe da alegria, sem coragem, sem concórdia e sem paz. Ele, vendo o abismo da solidão e movido por uma compaixão infinita, então indagou:

– Quem de nós descerá para resgatar a comunhão perdida e curar as feridas do mundo?

O Filho, fixando os seus olhos nos olhos do Pai, respondeu sem hesitar:

– Eu irei, Pai. E fazendo-Me carne entregarei a minha própria vida para reescrever a história deles, alcançando e salvando a todos.

E o Espírito Santo, contemplando a entrega sublime do Filho, declarou:

– Eu irei com Ele. Serei o sopro de vida no coração de cada um deles, revelando em cada coração humano o Teu amor-comunhão.

 

Queridos irmãos e irmãs, Deus Trindade veio, vem e sempre virá em nosso auxílio. Basta que cremos nesse mistério de amor e nos deixemos ser tocados por Ele, a fim de que vivamos em comunhão com Deus para vivermos em comunhão entre nós, pois esse é o maior desejo da Santíssima Trindade.

 

Que estejamos sempre unidos em nome de Deus que é: Pai, e Filho e Espírito Santo!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


domingo, 24 de maio de 2026

Solenidade de Pentecostes - Ano A

“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22)


Caríssimos irmãos e irmãs, celebramos a Solenidade de Pentecostes. Fazemos a memória da manifestação do Espírito Santo e o início da pregação dos apóstolos. Diante disto, uma certeza devemos possuir, nós não celebramos acontecimentos do passado, mas fazemos hoje a experiência com o sublime Dom de Deus, porque neste dia é Pentecostes para nós.

 

Caros irmãos e irmãs, a palavra Pentecostes vem do termo grego πεντηκοστή, que significa quinquagésimo, ou melhor, cinquenta dias. Para os judeus, Pentecostes é a mesma celebração do Shavuot (Festa das Semanas). A mudança terminológica dessa Festa ocorreu devido aos judeus de língua grega que substituíram o nome Shavuot para Pentecostes ainda no período da Septuaginta.

 

O Shavuot marca o fim da colheita e a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai. Enquanto para os cristãos, Pentecostes representa a descida do Espírito Santo sob os apóstolos e o “nascimento” público da Igreja.

 

Esses motivos supracitados nos provocam uma considerável reflexão:

 

– Se para os judeus, Pentecostes é o fim da colheita, para nós é o fim de qual colheita?

 

– Se para os judeus, Pentecostes é a comemoração do recebimento da Lei de Moisés, nós cristãos comemoramos qual recebimento?

 

Meus irmãos e minhas irmãs, hoje é o fim da nossa colheita, pois tudo aquilo que Nosso Senhor havia de realizar já foi realizado. A sua presença no meio de nós durante todo o tempo pascal foi a prova de que Ele, após a sua ressurreição, aos poucos colhia de nós a fé e a vivência dela. No mesmo sentido em que Jesus colhia de nós o que precisava ser colhido, hoje Ele nos oferece Aquele que é a δύναμις, ou seja, a força que veio para nos auxiliar a viver a lei do evangelho. Por isso que em Cristo já não existe a antiga Lei, pois Ele é a plenitude da Lei, e é somente o Espírito Santo quem confirma em nós essa certeza.

 

Na primeira leitura (At 2, 1-11) nos deparamos com Maria e os apóstolos todos reunidos em casa, quando um forte barulho semelhante a uma forte ventania encheu a casa onde eles se encontravam; línguas de fogo pousaram sobre eles e todos ficaram repletos do Espírito Santo (vv. 2-4). Vejamos, irmãos e irmãs, que os apóstolos receberam o Espírito e na mesma hora começaram a falar em línguas diferentes de acordo com o Espírito de Deus os suscitava. Sem sombra de dúvidas, essas diferentes línguas são os dons do Espírito Santo, os quais foram dados aos apóstolos porque era ali, em Jerusalém, que eles deveriam começar o anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo.

 

Segundo alguns teólogos, naquele contexto da Festa de Shavuot, em Jerusalém havia muitas pessoas que foram até lá para oferecerem a Deus a sua colheita e a sua oferta agradável, por isso o Espírito concedeu aos apóstolos o dom de falar outras línguas. Estas seriam extremamente necessárias, para que eles pudessem anunciar as maravilhas de Deus aos povos de todas as nações, como os partos, medos, elamitas etc., os quais simbolizam a universalidade da missão e pregação da Igreja.

 

Na segunda leitura (1 Cor 12,3b-7.12-13) o apóstolo Paulo confirma a universalidade da Igreja ao destacar a diversidade de dons, ministérios e atividades que o Espírito de Deus é capaz de suscitar àqueles que formam um só corpo, isto é, a Igreja de Cristo (v. 12).

 

No evangelho (Jo 20, 19-23) o Senhor se coloca no meio da comunidade dos apóstolos e a eles deseja a sua paz: o seu Shalom. Depois soprou sobre eles dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (v. 22), para confirmar a sua paz.

 

Hoje o Senhor também se dirige a nós para nos oferecer o Espírito Santo, o Dom de Deus. É este mesmo Espírito quem nos leva a plenitude da perfeição; que ora em nós e nos dá a paz; que conduz a nossa Igreja; que santifica o nosso ser e ainda nos garante o amor de Deus por nós.

 

Que possamos suplicar: Vem, Espírito Santo de Deus! Pois o Senhor quer que O recebamos em nossa vida!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)

 


sábado, 16 de maio de 2026

Solenidade da Ascensão do Senhor - Ano A

“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20).

 

Queridos irmãos e irmãs, estamos diante de um mistério que liga a terra aos céus, e o nosso coração a Deus. Esse mistério está intimamente unido aos mistérios da Ressurreição e Pentecostes, e é justamente por isso que a liturgia de hoje nos convida a olhar, contemplar, e ao mesmo tempo, a tocar os céus diante do significado que a Ascensão do Senhor tem para nós, pois para onde o Ressuscitado se ascendeu é a nossa morada.

 

Ao celebrarmos a solenidade de hoje, celebramos o dia em que o Senhor, vivo e ressuscitado, voltou para o Pai em sua glória; por isso hoje o Tempo Pascal se conclui. Mas, essa celebração não é uma despedida e nem um “até logo”; porque fazemos memória do “estar” ou “permanecer” do Senhor todos os dias entre nós, que no evangelho deste domingo (Mt 28, 16-20) se alude. E é em virtude desse “estar” que gostaria de vos escrever esta reflexão dominical.

 

No evangelho Jesus assegura aos seus discípulos o seu estado de permanência entre eles através destas palavras: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, o último versículo do evangelho deste domingo nos leva a refletir a respeito da permanência de Jesus após a sua ressurreição com os seus. Poderíamos nos questionar: – Se Jesus cumpriu a sua missão anunciando o Reino de Deus, sofreu a paixão, foi crucificado e ressuscitou no terceiro dia, qual seria o motivo Dele permanecer por cerca de quarenta dias e ainda afirmar que estaria com os seus discípulos até ao fim do mundo?

 

  A análise bíblica em seu aspecto linguístico nos possibilita refletir o sentido do “estar” do Senhor com os seus. O verbo grego εἰμι (sou/estou) deixa claro que é próprio de Jesus “ser” e “estar”; estes termos são atribuições humanas, mas antes divinas, visto que é de Deus que provém todo o ser e existir. E, embora o texto bíblico-litúrgico do evangelho traz a tradução do “estar” para “estarei”: “Eis que eu estarei […]. (Mt 28, 20); gostaria de considerar a tradução do texto bíblico em grego “estou” para demonstrar que a afirmação do Senhor aos seus discípulos a partir deste verbo indica que Ele não estaria no futuro, porque Jesus Cristo continua estando com eles todos os dias na potencialidade de seu Espírito até ao fim do mundo.

 

Meus irmãos e minhas irmãs, a παρουσία do Senhor (transliterada em: parousia) é realidade presente e não futura. Isto fica muito claro quando conseguimos compreender o seu sentido através do prefixo pará que significa “ao lado”, e do sufixo ousia que expressa o “ser”, isto é, a essência, e ainda o “estado do ser”, como por exemplo, “estou”. Portanto, disso devemos ter a consciência e acreditar que o mesmo Jesus que pregou o Reino, curou, foi morto e ressuscitou está constantemente ao lado dos seus e ao nosso lado também, e, não há dúvidas de que vivemos na sua presença.

 

Para compreendermos a presença do Senhor é necessário voltar o nosso coração para o mistério que celebraremos no próximo domingo. É o Pentecostes que nos garantirá a permanência de Jesus no meio de nós, e isto nos consola e nos revigora. Diante disto, como é bom sabermos que hoje Jesus subiu aos céus, mas antes em seu estado de permanecia desejou fortalecer a fé daqueles que estavam sempre próximos ao explicou-lhes o sentido próprio da missão apostólica. É por essa razão que São Paulo na segunda leitura (Ef 1, 17-23) afirma: “O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos e fê-lo sentar-se à sua direita nos céus. Ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (vv. 20-23). E estando acima de tudo era preciso que se ascendesse aos céus para junto do Pai, e com Ele nos reconciliasse.

 

Pelas palavras do apóstolo podemos compreender ainda a eficácia do mistério da Ascensão. Dela a Igreja apostólica, encabeçada por Jesus Cristo e constituída de seus membros que somos nós, recebeu a sua missão, e os discípulos agora reconhecidos como apóstolos compreenderam o seu papel através do mandato no evangelho: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (Mt 28, 19-20).

 

Na primeira leitura de hoje (At 1,1-11) se encontra um mandato semelhante ao do Senhor no evangelho, porque se faz escutar o forte apelo de dois homens vestidos de branco, que a tradição afirma ser anjos de Deus: “Homens da Galiléia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (v. 11).

 

A mesma exortação recebida pelos apóstolos hoje é dirigida a nós que por meio do nosso apostolado somos convidados e convocados a anunciar as maravilhas do Senhor. Se hoje ao subir aos céus Ele cumpriu a sua missão, cabe a nós, enquanto membros de seu corpo que é a Igreja, acreditar que a nossa missão de pregar a mensagem do evangelho começa hoje. Todavia, de modo muito mais efusivo no próximo domingo seremos como os apóstolos, enviados e amparados pelo Espírito Santo no anúncio e testemunho da nossa fé.

 

Por fim, que a oração da coleta deste domingo seja a nossa oração nesta semana: “Ó Deus, na presença dos Apóstolos, vosso Filho hoje subiu ao céu. Concedei, nós vos pedimos, que, segundo a sua promessa, ele esteja sempre conosco na terra, e nós mereçamos viver com ele no céu. Ele, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”. Amém!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


domingo, 10 de maio de 2026

6º Domingo da Páscoa - Ano A

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor” (Jo 14, 16).

 

Queridos irmãos e irmãs, se no domingo anterior a liturgia da Palavra nos apontava para a Solenidade da Ascensão do Senhor que celebraremos no próximo domingo, hoje ela nos prepara para a grande Solenidade de Pentecostes, isto é, a vinda do Espírito Santo de Deus, o Defensor, como lemos no evangelho deste domingo.

 

Como ação de Deus na nossa história, a liturgia em sua pedagogia própria tem por objetivo preparar o nosso coração para rezar, crer e viver os mistérios divinos em uma realidade presente e futura. E é justamente por essa razão que hoje ela nos insere no mistério do Espírito, mesmo que ainda aguardamos para celebrar solenemente a sua manifestação pública daqui a duas semanas.

 

Caros irmãos e irmãs, não é em vão que temos vivido o mistério Pascal ao longo de cinco semanas perscrutando a novidade da permanência do Cristo no meio de nós. A sua presença nos consola, acalenta, anima e nos faz suportarmos as adversidades da nossa vida na posição própria do Ressuscitado, ou seja, em pé. E não há dúvida de que o Filho de Deus, mesmo depois de ter sido Ressuscitado desejou permanecer conosco para mostrar que a Promessa de Deus sempre se fez dom. Por isso, pela primeira vez, na liturgia pascal, o Ressuscitado cede lugar ao seu dom: o Espírito de Deus. Aquele que foi dado sem medida a nós no dia do batismo, como contempla a primeira leitura (At 8, 16).

 

No evangelho deste domingo (Jo 14, 15-21) Jesus se dirige exclusivamente aos seus discípulos, aqueles que Ele amava muito; e para lhes assegurar o seu amor, Ele utiliza de uma condição: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v. 15). Em outras palavras, Jesus lhes disse que a maior prova de amor que os seus discípulos poderiam dar é, sem sombra de dúvidas, a vivência dos mandamentos. Mas, quais mandamentos?

 

Os mesmos que foram dados por Deus a Moisés no Sinai, e que Jesus no evangelho de João sintetizou em pouquíssimas palavras: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13, 34). Porque é simplesmente na dinâmica do amar um ao outro que os discípulos seriam reconhecidos como os discípulos do Senhor (Jo 13, 35). E hoje essa realidade nos provoca, uma vez que somos fracos para amar como exige a nossa fé!

 

Indo adiante, observaremos que o desfecho da condição colocada pelo Cristo no evangelho de hoje não termina com o “guardar” os mandamentos, porém, se estende à promessa por detrás deles: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco” (Jo 14, 16). Portanto, meus irmãos e minhas irmãs, a promessa de Deus para nós, por meio desta liturgia, é o próprio Defensor, e não existe outro!

 

Diante dessa afirmação somos conduzidos ao questionamento:

 

– O Paráclito enviado por Deus nos defenderá de quem ou do quê?

 

Certamente, o Espírito Santo nos defenderá do mundo e do espírito deste mundo.

 

– E por que Ele nos defenderá?

 

O primeiro motivo se crê que o Espírito de Deus nos defenderá, porque é da vontade do Cristo em permanecer conosco por intermédio de seu Espírito, mesmo que Ele suba ao Pai na glória. O Verbo de Deus não nos veio para um “faz de conta”, ao contrário, veio para fazer morada em nós; por isso cremos que Deus Trindade habita absolutamente em nós. E se Deus fez morada, jamais deixará de se fazer presente.

 

 O segundo se comprova pela defesa contra as adversidades e difamações, salientadas na segunda leitura (1Pd 3, 16), com as quais muitas vezes sofremos. Porém, diante de toda difamação e adversidade não devemos temer e desesperar, pois a defesa do Espírito nos vem quando fazemos a nossa parte e agimos corretamente pela mansidão, respeito e boa consciência (v. 16).

 

Que a liturgia deste 6º Domingo da Páscoa do Senhor nos prepare para as solenidades que se aproximam, a fim de que pelo sacramento pascal possamos viver constantemente na presença de Deus e clamar em nosso favor: Vem, Espírito Santo!

 

Que Deus nos ajude!

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


11º Domingo do Tempo Comum – Ano A

          Queridos irmãos e irmãs, celebramos o 11º Domingo do Tempo Comum. A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre a dinâmica...