“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4, 10).
Caríssimos irmãos e irmãs, estamos iniciando a terceira semana do tempo quaresmal. Na liturgia do domingo passado meditamos sobre o mistério da Transfiguração, o qual nos interpelou a respeito de nossa fé na Promessa e na Palavra de Deus. Neste domingo o Espírito da liturgia nos conduz a contemplar um outro mistério, humano e divino: a sede! E para meditar este mistério é preciso de antemão nos questionar sobre o dom de Deus. – Afinal, que dom é esse?
Na primeira leitura (Ex 17, 3-7) encontramos o relato da travessia do povo pelo deserto. No início dessa leitura observamos que o povo murmurava contra Moisés pela falta de água através de alguns questionamentos: “Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (v. 3). Vejamos que essa indagação é um tanto provocativa, pois Iahweh já havia realizado muitos sinais diante deles no deserto, e mesmo assim persistiam na mesmice e no murmúrio. Os capítulos anteriores a essa leitura de Êxodo deixam claro que para aquele povo parecia estar cômodo habitar nas terras do Egito e permanecer sob o julgo do faraó Ramsés II, porque em diversas passagens eles reclamaram por estar caminhando no deserto. Aqui nos deparamos com um povo de “servil dura”, que não compreendia e tampouco desejava permanecer na vontade de Deus.
O texto bíblico da primeira leitura afirma que Iahweh atendeu o pedido do povo e de Moisés, este que já não sabia mais o que fazer diante de tantos questionamentos. Desse modo, Deus ordenou a Moisés que ferisse a pedra para que dela vertesse água para saciar a sede daquela gente. Diante desse acontecimento, Moisés chamou aquele lugar de Massa e Meriba por causa da insistência do povo e por tentarem a Deus questionando-O, dessa vez, com as seguintes palavras: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7).
Estimados irmãos e irmãs, a chave de leitura para a liturgia deste domingo se encontra a partir dessa pergunta: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). Sem sombras de dúvidas, é com base nessa interrogação que chegaremos a compreender qual é a resposta que Deus espera de nós por meio dessa Quaresma; mas é claro, se antes formos capazes de fazer ressoar em nós mesmos as fortes palavras do salmista: “Se hoje escutardes a sua voz, não endureçais o coração” (Sl 94, 8).
Consonante à primeira leitura, o evangelho deste domingo (Jo 4, 5-42) nos convida à cena cativante do diálogo de Jesus, o Messias esperado, com a mulher samaritana. Por se tratar do evangelho de João, conhecido popularmente entre biblistas e não biblistas como o “evangelho dos sinais”; de início a narrativa deste evangelho dominical nos direciona aos diversos acenos que ao longo do diálogo vão sendo identificados e nos levam à reflexão profunda. Todavia, gostaria de os conclamar a adentrar na cena do evangelho, para perceber as ações, e inclusive, se possível for, a se colocar no lugar daquela mulher, porque é a vida dela e de seu povo que mais importava para Jesus naquele exato momento. Ademais, gostaria ainda de me ater em algumas falas da tratativa da samaritana com o Mestre que cativava e advertia, a começar pela necessidade com que Ele teve.
Caros irmãos e irmãs, o texto bíblico-litúrgico deste evangelho não traz o versículo 4, porém, gostaria de salientar que o evangelista deixa claro através desse versículo que: “Era preciso passar pela Samaria”. O contexto dessa passagem aponta que Jesus estava na Judeia retornando à Galileia, mas dentre os caminhos que Ele poderia escolher para passar, optou por transitar justamente pela Samaria. Poderíamos diante desse fato nos perguntar: Por que passar pela Samaria? Seria este um lugar estratégico ou até mesmo um atalho?
As terminologias gregas com as quais os evangelhos foram redigidos nos auxiliam na melhor compreensão e assimilação da mensagem do texto bíblico. Assim sendo, podemos concluir que o emprego do verbo grego Ἔδει, de cuja tradução “era preciso ou convinha”, nos ajuda a crer que Jesus possivelmente tinha uma missão salvífica inadiável naquela região, ou ainda, um encontro marcado com alguém muito importante. Em outras palavras, convinha que o Cristo passasse por aquele povo, e ainda mais, que Ele se fizesse presença no meio deles por dois principais motivos. O primeiro, em paralelo ao texto da primeira leitura, comprova a indagação do povo no deserto: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). E o segundo veremos a seguir na narrativa introdutória do diálogo de Jesus com a samaritana.
Meus irmãos e irmãs, para contextualizá-los melhor explico-lhes que devido aos conflitos anteriores entre judeus e samaritanos, jamais um judeu poderia passar pela Samaria. Essa região era considerada impura por causa da influência dos povos assírios e pelo culto a outros deuses. Os samaritanos, por sua vez, observavam apenas as Leis (Torá) e não acreditavam no profetismo de alguns profetas, como aqueles do Templo. Esses semipagãos, como salienta o teólogo Pagola, adoravam a Deus no monte Garizim e não em Jerusalém, como os judeus. Sem dúvidas, essas perspectivas nos leva a entender que a rivalidade entre ambos os grupos era antiga e com alguns motivos defendidos por parte de cada um deles.
Indo adiante, conforme nos apresenta o texto, Jesus sendo judeu e estando cansado sentou-se no poço de Jacó por volta do meio-dia, e logo em seguida chegou a mulher samaritana para tirar água daquele poço (Jo 4, 5). Mesmo que o diálogo entre os dois não tenha se iniciado ainda neste versículo, por meio dele nos é manifestado um sinal introdutório, isto é, a ação do Messias em se colocar no meio daquele povo samaritano representado pela própria mulher. Aqui, em sentido paralelo à primeira leitura, mais uma vez volta à nossa memória a pergunta do povo no deserto: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). Sim, caros irmãos e irmãs, o Senhor desejou estar no meio dos samaritanos para demonstrar que a salvação viera também para eles.
A mensagem para nós deve ser muito óbvia: Jesus veio para todos; veio para romper as barreiras entre judeus e pagãos, por isso de modo muito consciente e humilde Ele foi capaz de suplicar: “Dá-me de beber” (Jo 4, 7). Jesus estava com sede. – Mas, que sede é esta? Sede de alguém?
Santo Agostinho em seus sermões sobre essa página do evangelho dizia que o Cristo sentiu sede da fé daquela mulher, pois Ele queria muito que aquele encontro fizesse com que ela acreditasse verdadeiramente Nele e em suas palavras. E foi isto o que aconteceu!
O teólogo espanhol Antonio Pagola sublinha que Jesus, o sedento, se sentiu à vontade diante daquela mulher, por isso se viu na oportunidade de pedir de beber a ela. É certo que a samaritana reconheceu o risco que Jesus havia cometido, pois mesmo Ele sendo judeu pedia de beber a uma mulher, que por sinal era da Samaria (v. 9). Ainda no início desse importante diálogo a samaritana retruca, porém, aos poucos vai sendo convidada a também se sentir à vontade diante Dele, como alguém que progressivamente vai abrindo o coração e se deixando ser consolado (a).
Mais adiante vemos a resposta emblemática de Jesus à samaritana: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (v. 10). A provocação enfática de Cristo: “Se conhecesses o dom de Deus”, do grego εἰ ᾔδεις τὴν δωρεὰν τοῦ θεοῦ carrega consigo um emaranhado simbólico, dentre os quais podemos destacar a necessidade do conhecimento profundo do dom de Deus expresso pelo verbo grego ᾔδεις (conhecesses) e τὴν δωρεὰν (o dom/presente de Deus). A junção de ambos os termos manifesta a intenção de que o Messias por meio da condição εἰ (Se), se autorrevela a ela quem Ele realmente é: o Messias esperado, que veio para saciar a fome de todos! Essa condicional (Se) conduz à expressão: “Dá-me de beber”, do grego δός μοι πεῖν, uma vez que através dela Jesus realiza o seu pedido de maneira muito humilde; como alguém que está bastante cansado e com muita sede.
Meus irmãos e minhas irmãs, as ações do Cristo comprovam que Ele realmente estava cansado e sedento. O seu cansaço e a sua sede não eram somente físicos. Podemos intuir que assim como Iahweh estava “cansado” daquele povo, cujo coração endurecido e fechado, os impossibilitava de enxergar as obras de Deus sendo realizadas em suas vidas. No evangelho, Jesus no primeiro momento também se mostra como alguém “cansado” da viagem, mas também “cansado” de tocar os corações de muitos, e poucos mudarem realmente de vida. Diante dessas afirmações, desejo profundamente que todos compreendam o termo “cansado”, no sentido figurado, utilizado nestas linhas.
Assim como o “cansaço”, Iahweh estava sedento do seu povo que caminhava pelo deserto. Com certeza foi essa sede que O levou a permanecer com eles no deserto, uma vez que a sua presença era constante. Do mesmo modo, foi a sede de Jesus que o fez entrar em intimidade com aquela mulher. Ele não precisaria pedir de beber à ela, pois Ele mesmo é a Água viva, mesmo assim se abaixou na condição de mostrar que estava sedento dela, sede de ganhar o seu coração; e ainda representa a sede de todo aquele povo semipagão pelo verdadeiro Deus. Alem disso, o Messias tinha sede de que eles tivessem sede Dele, pois Deus sempre tem sede de nós!
Caros irmãos e irmãs, aqui está a resposta que Deus quer de nós através desta liturgia oportuna. Ele deseja que nós tenhamos sede Dele. Aquela sede insaciável que nos faz ir até Ele para suplicar como Ele: “Dá-me de beber” (Jo 4, 7).
O diálogo entre os dois continua até que a mulher pede ao Cristo que lhe conceda a Água viva, a ponto de reconhecê-Lo como um profeta. Ele afirma que os samaritanos adoram o que eles não conhecem, e ainda que os verdadeiros adoradores não adorarão ao Pai no monte Garizim e nem em Jerusalém, mas em espírito e verdade (vv. 15-24).
Caríssimos, esses sinais apontam para o messianismo de Jesus. Os samaritanos esperavam o Messias, aquele que viria para restaurar a dignidade daquele povo, por isso para eles, o Restaurador seria um novo Moisés, que restauraria o culto a Deus no monte deles. A chamada de atenção de Jesus através destas palavras: “Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4, 21); significa, segundo São João Crisóstomo, que o Messias advertia aquela mulher afirmando que não seria mais no monte Garizim e tampouco em Jerusalém que Deus deveria ser adorado, mas Nele próprio, pois Ele nos revela o rosto do Pai, a fim de que adoremos ao Pai somente em espírito e verdade (v. 23).
A liturgia deste domingo é muito clara, por isso ela mesma nos convida a crer que o Cristo teve sede e pressa para salvar; e ainda de se mostrar como o único e verdadeiro Messias, capaz de saciar a sua própria sede amando, porque o dom de Deus é amar. Aqui nos deparamos com a finalidade do tempo quaresmal, o qual por meio de uma pedagogia própria nos conduz ao mistério da salvação. É o que faz São Paulo na segunda leitura (Rm 5, 1-2.5-8) a nos escrever que a salvação veio por Jesus Cristo, e somente pela fé Nele que seremos justificados; e a prova disto é o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (v. 5).
O mistério da sede que nesta liturgia quaresmal se reveste em divindade e em humanidade comprova que a sede do povo do deserto é do povo da Samaria era a mesma que Deus tinha deles. Por isso que diante daquela mulher, o Messias se rebaixou ao extremo, descendo até o mais profundo daquele poço, ou seja, o coração daquela mulher, para deixar claro que a sede que ela (samaritanos) possuía era a mesma que a Sua: sede um pelo outro!
No evangelho vemos ainda que Jesus se autoproclama o Messias verdadeiro ao afirmar: “Sou eu, que estou falando contigo” (Jo 4, 26). Imaginemos, irmãos e irmãs, essas palavras ressoando em nossos ouvidos por meio desta liturgia; como se o mesmo Cristo dissesse também a nós e nos provocasse a tomarmos a mesma atitude ousada que tomou aquela samaritana, isto é, deixar o cântaro e ir em direção à cidade (v. 28). Pois a respeito desse cântaro, Orígenes afirma que para a samaritana significou deixar tudo: o pecado, a vida velha e o que a impedia de se colocar por inteira na presença do seu Messias. Diante disto, algumas perguntas devem nos levar à reflexão: – O que tem roubado a nossa sede? O que tem feito que a nossa sede seja por outras coisas ao invés da sede de Deus?
Talvez o que possa roubar a nossa sede seja as nossas más ambições, nossos falsos ídolos, pecados e problemas não resolvidos. Por isso que o movimento da samaritana de ir à cidade representa para nós que a mensagem salvadora de Deus é tão forte e atual, a ponto dela não se sentir condenada por aquilo que fez e por causa de suas falsas crenças; mas ao contrário, ela se sente saciada e no direito de testemunhar a outros sobre o verdadeiro Messias.
Meus irmãos e minhas irmãs, o encontro com Jesus Cristo no poço de nossa história deve ser sempre real e presente, a fim de que possamos dialogar com o Messias, que nos fala ao coração sempre de maneira acolhedora e cativante. Por esse motivo, hoje Ele nos convida a ir ao nosso poço, para simplesmente pedirmos a Ele de beber, porque no fim de tudo é tão somente Ele quem nos saciará!
Que Deus nos ajude a ter sede Dele e a cooperar para que outros também possam beber desta mesma fonte de
Água viva!
(Luís
Guilherme Santos da Rocha)
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