“Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10).
Caríssimos irmãos e irmãs, somos introduzidos na quarta semana do tempo quaresmal a partir das verdades que o salmista nos oferece em seu canto: “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10). Se no domingo passado meditamos acerca do mistério da sede, do qual nos brota a certeza de que Jesus Cristo é a fonte da Água viva, hoje somos convocados a um outro mistério: a luz! Pois é por intermédio dessa luz que contemplamos a verdadeira Luz.
A primeira leitura deste domingo (1Sm 16, 1b.6-7.10-13a) nos situa sobre o relato da escolha e eleição de Davi, o qual fora ungido pelo profeta Samuel para ser o rei de Israel. No entanto, diante deste fato encontramos aquilo que podemos chamar de “contradição dialética”, pois conforme o texto bíblico, Samuel foi enviado por Iahweh à casa de Jessé na região de Belém para ungir com óleo, ou seja, eleger um filho daquela casa. No primeiro momento o profeta viu Eliab, o filho mais velho de Jessé, e deduziu facilmente que seria ele, uma vez que era o mais velho e provavelmente o mais forte. A resposta de Deus foi o fator crucial dessa eleição, pois assim foi dito: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei” (v. 7). E continuando Ele disse: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 7b).
As respostas de Deus ao profeta Samuel nos conduzem a alguns questionamentos cabíveis, como por exemplo: – O que consiste em olhar o coração? Deus elege alguém com um coração diferente das demais pessoas?
Queridos irmãos e irmãs, fazendo um adendo a respeito do tempo litúrgico em que vivemos, é preciso que nós possuamos a devida consciência de que o período quaresmal tem por finalidade conduzir todos os fiéis à Festa da Luz, ou melhor, à Páscoa do Senhor. É por esse motivo que a Igreja na Quaresma, desde os séculos IV e V, prepara os catecúmenos para o sacramento do batismo através de catequeses e escrutínios, para que seguindo o itinerário intenso de purificação e iluminação, os catecúmenos cheguem às águas do batismo na noite santa da Vigília Pascal. Além disso, é certo que a pedagogia deste tempo sacrossanto nos prepara para participar de maneira ativa e frutuosamente dos mistérios do Senhor. Contudo, para bem participarmos é necessário nutrir em nós através desta liturgia dominical uma alegria esperançosa, sinalizada pela cor litúrgica rosa, a qual nos garante que estamos próximos da Páscoa do Senhor.
Dando continuidade ao relato bíblico da primeira leitura devemos observar que nele se condensa muitos elementos simbólicos que podem nos situar diante de Deus e da eleição que Ele nos faz. É por isso que nesta leitura são apresentados os sete primeiros filhos de Jessé, mas faltava ainda o oitavo filho. Este passava boa parte de seu tempo nos campos de Éfrata cuidando de suas ovelhas, e não tinha a mesma aparência e estatura de seus sete irmãos (1Sm 16, 7). Mas, existia um fator que o diferenciava e tornava-o escolhido, isto é, o seu coração, que no hebraico לַלֵּבָ (coração), cuja forma transliterada (leb), significa o “lugar” mais íntimo e mais profundo que somente Deus conhece.
O coração de Davi era um coração de pastor. Aqui está o ponto alto dessa passagem bíblica, visto que jamais alguém escolhe ser pastor, mas antes é o chamado ao pastoreio que escolhe alguém dentre os homens para exercer esse belo ofício. Por isso, caros irmãos e irmãs, Deus olhou para o coração de Davi e o elegeu dentre os demais, não porque ele seria melhor ou superior, mas o essencial para a missão que futuramente lhe seria confiada, isto é, de ser rei-pastor. Em outras palavras, Deus ungiu a Davi para ser rei, porque seria por intermédio do seu reinado que ele seria salvo; mesmo que ele viesse a pecar como fez tantas vezes.
O evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o encontro decisivo e marcante de Jesus com um cego de nascença. O texto nos afirma que: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Neste primeiro versículo nos deparamos com a primeira e principal ação do Senhor, que foi a sua visão. O emprego do verbo grego εἶδεν (viu) remete à ideia de que Jesus ao passar por aquele homem, viu não somente a sua condição física, porém, antes reconheceu a sua necessidade de ser curado e se tornar outra pessoa. Aqui, em sentido paralelo à primeira leitura, podemos concluir que a grande maioria das pessoas enxergariam a condição enferma daquele homem cego, por isso parariam na aparência e na estatura (1Sm 16, 7). No entanto, Deus enxerga sempre a necessidade que brota do coração.
A pergunta dos discípulos de Jesus foi crucial: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9, 2). Os discípulos, pela lei, supuseram que a causa da cegueira daquele homem viria do pecado dos pais ou dele mesmo. Porém, a resposta de Jesus a eles deixou claro que não foram os pais que pecaram e tampouco ele próprio, mas para que a sua cegueira servisse para manifestar as obras de Deus através dele (v. 3).
Ante a afirmação do Mestre poderíamos perguntar ao evangelista: – Se ninguém pecou para que o homem cego de nascença obtivesse a cegueira, como é que poderíamos conceber a ideia de que o seu estado de cegueira seria para manifestar as obras de Deus? Ou ainda: – Deus se alegra com a enfermidade?
A resposta para nós é óbvia e se encontra no próprio relato bíblico. A cegueira foi o meio para que Jesus notasse aquele homem: “Jesus viu” (v. 1). E detalhe: a cegueira não compunha o ser, e sim o estado de vida do homem cego. Por esse motivo, o Senhor foi ao encontro da pessoa do cego de nascença e para curar a sua enfermidade, porque o que mais importa para Deus é a vida em sua integralidade.
Queridos irmãos e irmãs, estamos a todo momento cegos e necessitados de luz, por isso que o Senhor sempre vem ao encontro de nossa pessoa e de nosso estado de alma necessitada de cura e de cuidado. Devemos refletir qual é a nossa “enfermidade”, muitas vezes traduzida em pecados, escolhas erradas e falsas compreensões de nós mesmos e das realidades em que vivemos.
Indo adiante, Jesus alega ser a luz do mundo (Jo 9, 5), e seguindo o texto Ele agiu do seguinte modo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’ (que quer dizer: Enviado)” (vv. 6-7). Este gesto “sacramental” do Senhor comprova a compaixão com que Ele sentiu ao ver a condição e a reconhecer a necessidade daquele pobre homem em querer enxergar.
Caros irmãos e irmãs, imaginemos o estado de escuridão e trevas que aquele homem cego vivia. Até aquele momento presente ele jamais tinha visto a luz. É por isso que ele atendeu prontamente a ordem de Jesus em lavar-se na piscina de Silóe. O ato de lavar-se “chancelou” a cura daquele homem, isto não significa que as ações do Cristo precisam de “chancela”; pelo contrário, elas exigem de quem recebe a cura, a participação ativa no milagre. Desse modo, a ação do homem cego em lavar-se na piscina representa o seu consentimento; como se ele cresse na cura que Jesus havia realizado. Entretanto, isso não bastava, porque algo ainda lhe faltava, ou seja, crer não somente na obra (cura) do Cristo em sua vida, mas aderir-se totalmente a Ele, por meio da profissão de fé que trataremos a seguir.
Conforme o texto do evangelho, o homem, que era cego, ao ser identificado pelas pessoas foi visto diferente do que era antes. Certamente o toque “sacramental” do Filho do Homem fez com que ele, em sentido paralelo à primeira leitura, mudasse de aparência e de estatura (1Sm 16, 7), visto que as pessoas que o conheciam não foram capazes de reconhecê-lo depois do milagre. Outros ainda, como os fariseus não foram capazes de notar a transformação daquele homem, porque estavam fechados à graça e atrelados tão somente às leis e ao sábado (Jo 9, 13-17). Por isso que eles interrogaram não somente o homem que era cego, mas inclusive a sua família (vv. 19-23), pois não acreditavam nos feitos, e tampouco na pessoa de Jesus Cristo.
Mais adiante vemos que a resposta dos fariseus ao homem que passou a enxergar foi a expulsão dele da comunidade judaica. Todavia, algo novo aconteceu na vida dele. O Cristo lhe apareceu novamente e o interrogou: “Acreditas no Filho do Homem?” (Jo 9, 35). Até aquele momento o curado acreditava na cura que ele havia recebido, mas ainda não acreditava em Jesus, o Cristo. Por isso ele perguntou: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” (v. 36). E Jesus lhe disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo” (v. 37). Naquele instante a resposta e atitude de fé daquele homem fizeram com que ele obtivesse a cura por inteira: “‘Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus” (v. 38).
Desta liturgia devemos tirar uma lição para a vida: nós “estamos” sempre cegos. Por isso que um dia fomos levados à pia batismal, ao útero da Igreja, para recebermos o sacramento do batismo e enxergarmos com os olhos da fé a luz que é Cristo. Mesmo assim poderíamos nos perguntar: – Se pelo batismo recebemos a Luz, por que em nós ainda moram as trevas que nos faz sermos cegos?
Eis aqui, caros irmãos e irmãs, um notável paradoxo. Este não deve nos espantar, ao contrário, deve nos fazer compreender que ainda não estamos prontos. Particularmente, gosto de pensar que a visão de Deus para nós é mirabolante, pois Ele nos enxerga “lá na frente”, no momento exato em que estaremos prontos para o céu. As fortes palavras de Santo Irineu de Lião, Padre e Doutor da Igreja nos apontam para essa mesma ideia de visão, pois desse modo ele afirmou: “Gloria Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei”, isto é, a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.
Deus é aquele que sempre nos vê de perto, pois para Ele não existe visão turva ou distanciada. A visão Dele é sempre cuidadora, pois assim nos canta e declara o salmista na liturgia deste domingo: “O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma (Sl 23, 1). E em decorrência a esta verdade, o cardeal Raniero Cantalamessa sublinha algo que pode nos levar a refletir a respeito do tema da “visão”. Para ele, a fé é capaz de nos oferecer uma visão sempre nova da vida. Diante disso eu te pergunto: – Que visão você tem da sua vida? Por acaso, essa visão é clara e verdadeira?
Meus irmãos e minhas irmãs, nós temos um tesouro inviolável dentro de nós, que é a fé. Por isso, precisamos tomar cuidado com o que estamos fazendo com esse tesouro. A exortação de Jesus em outra passagem do evangelho: “Onde está o teu coração, aí está o teu tesouro” (Mt 6, 21); deixa mais evidente a preocupação com que devemos ter com o nosso tesouro, a ponto de nos levar ainda a refletir com outras palavras esse pensamento: Onde está a tua fé, aí está a tua vida!
Certamente, Deus conhecia o coração de Davi, ou em outras palavras, Ele conhecia a vida daquele jovem pastor. De igual modo, o Filho do Homem ao reconhecer a condição daquele homem que era cego de nascença, conhecia a sua vida, a ponto de dar a ele a luz que tanto necessitava: a fé!
É a fé que nos conduz ao mistério que meditamos neste 4º Domingo do Tempo da Quaresma. Sem ela não enxergaremos a luz que é Cristo, é por isso que Deus espera que a fé nos faça ser outra pessoa, como o cego que se tornou uma pessoa nova. Hoje, pela segunda leitura (Ef 5, 8-14), as palavras do apóstolo Paulo: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (v. 11); devem ser para nós um convite a sair de nosso estado de cegueira em direção a Luz sem ocaso. Portanto, caros irmãos e irmãs, não importa onde esteve a sua vida (coração) até agora, basta que ela esteja Jesus Cristo, porque Ele sempre nos vê e vem ao nosso encontro para nos curar e nos fazer enxergar a vida com os olhos da fé.
Que Deus nos ajude!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)
Uma linda reflexão
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