“Fazei justiça, ó Deus, e defendei-me contra a gente impiedosa; do homem perverso e mentiroso libertai-me, ó Senhor! Sois vós o meu Deus e meu refúgio” (Sl 42, 1-2)
Caros irmãos e irmãs, no domingo passado meditamos sobre o mistério da luz, que é Cristo. O único capaz de curar a nossa cegueira, nos fazer enxergar com os olhos da fé e nos permitir viver uma nova vida. Hoje celebramos o 5º Domingo do Tempo da Quaresma, por meio do qual somos inseridos no mistério da vida nova em Cristo.
O salmo da Antífona de entrada nos recorda a confiança com que devemos possuir nos cuidados e na proteção de Deus, os quais nos vem mediante a sua justiça, pois ela comprova em nós a bondade de Deus e nos direciona à sua santa vontade. Podemos nos perguntar: – Em quem consiste a nossa justiça? A justiça de daqueles que creem consiste em Deus. Somente Ele pode nos oferecer o que mais necessitamos, por este motivo que cantamos hoje com salmista no início da celebração: “Fazei justiça, ó Deus [...] Sois vós o meu Deus e meu refúgio” (Sl 42, 1-2).
Na primeira leitura (Ez 37, 12-14) escutamos a profecia de Ezequiel, o qual como porta-voz de Deus dirigiu-se ao povo para lhes dizer: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (v. 12). Esta leitura, em seu contexto histórico, visa anunciar ao povo que estava no exílio babilônico, sobre uma esperança na volta para a Terra de Israel. No entanto, por se tratar de Ez 37, a volta para a Terra significava muito mas do que uma simples volta à pátria, mas a união dos reinos de Israel e Judá que havia se divido e estavam dispersos.
Para Deus, a devolutiva da Terra em favor de seu povo consistia, de maneira figurada, a abertura da sepultura (libertação do exílio) e o recebimento do espírito, como forma de tirá-los da realidade de morte para a vida, e somente o Espírito é capaz de garantir a vida. Desse modo, paralelamente à primeira leitura, na segunda (Rm 8, 8-11) o apóstolo Paulo advertiu a comunidade de Roma para que vivessem não segundo a carne, mas conforme o Espírito de Jesus, uma vez que é o Espírito quem confere a vida e o pertencimento a Jesus Cristo, graças a justiça (vv. 8-11). E, esta justiça, a mesma salientada na Antífona de entrada, se vive somente mediante a fé em Cristo Jesus (Rm 1, 7).
O evangelho (Jo 11, 1-45), coroamento de toda esta liturgia da Palavra, nos conduz a meditar ao mistério que nos aproxima mormente da Páscoa: a vida nova! Assim sendo, no início do capítulo 11 de João vemos a narrativa da ressurreição de Lázaro, irmão de Marta e Maria. Por esse relato nos deparamos com o dado de que Jesus, mesmo sendo amigo de Lázaro, retornou à casa de Marta e Maria depois de quatros dias que seu irmão havia morrido.
Diante da cena evangélica, Marta e Maria estavam desesperadas, a ponto de Marta exclamar reivindicando a vida de seu irmão: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá” (Jo 11, 21-22). Aqui, queridos irmãos e irmãs, vemos o importante salto de fé de Marta, a qual mesmo se lamentando acredita no poder de Deus porque tinha fé em seu coração.
É justo e necessário evidenciar que no evangelho de João o ponto central é a necessidade da fé na pessoa de Jesus Cristo, porque Ele é o Verbo de Deus, que se fez carne e morada entre nós (Jo 1, 14). É justamente por esse motivo que em todo o evangelho joanino o evangelista procurar exprimir pelos feitos de Jesus os sinais sensíveis capazes de conduzir a sua comunidade a verdadeiramente crer no Filho de Deus.
Dando continuidade ao texto bíblico do evangelho nos deparamos com a resposta categórica de Jesus à Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” (Jo 11, 25-26). Reparemos que propositalmente Jesus reivindicou aquilo que lhe pertencia, isto é, a fé de Marta, a fim de que Ele realizasse a sua obra: “Crês isto?” (v. 26). Na sequência vemos a presença de alguns judeus que mesmo não crendo foram audaciosos em questionar dizendo: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” (v. 37). Diante disto, o evangelista fez questão de colocar que Jesus ficou novamente comovido (v. 38).
A comoção do Cristo nesta página do evangelho de João pode ser entendida muitas vezes como a emoção de alguém que teve o conhecimento da morte de uma pessoa muito especial e importante. Porém, lhes chamo a atenção para a comoção de Deus.
Por acaso, Deus se comove? Se sim, até que ponto?
O texto grego descreve o sentimento do Filho de Deus da seguinte forma: ἐμβριμώμενος ἐν ἑαυτῷ (gemendo em si mesmo). Esse “gemido” interno evoca a realidade de extrema indignação diante do acontecimento. Por isso que nos versículos anteriores Jesus se comove muito, e repito: Ele realmente se comoveu! A ponto dos judeus perceberem e afirmarem: “Vede como ele o amava!” (Jo 11, 36).
É justamente na sensação de indignação e comoção, que o Cristo antes de ordenar a Lázaro que saísse daquele estado de morte orou ao Pai dando-Lhe graças por ouvi-Lo e revivificar Lázaro, para que o povo acreditasse que Ele foi enviado (v. 41). Santo Hilário acentua que Jesus não precisava orar, mas orou por causa daqueles que estavam junto Dele, a fim de que viessem a saber que Ele era o Filho enviado do Pai e pudessem ter a fé beneficiada. Ante a este comentário poderíamos intuir que o desejo de Jesus era confirmar a fé daqueles que já possuíam fé, e levar os que não tinham fé a acreditar realmente na sua pessoa divina.
Por fim, o Filho do Pai, diante dos que estavam presentes ao túmulo, dirigiu a Lázaro, que estava morto há quatro dias, as seguintes palavras de ordem: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11, 43). Em outras palavras, Jesus ordenou a Lázaro que saísse daquela condição de morte. E aqui está o ponto alto dessa passagem e de toda a liturgia deste domingo: – Se Jesus, que é Deus, se comoveu realmente pela morte de seu amigo Lázaro, por que Ele “precisou” revivificá-lo novamente?
A revivificação, substantivo mais correto para falarmos sobre o que muitos chamam de “ressurreição” de Lázaro, serviu para um único objetivo, isto é, para que aqueles que presenciaram a morte de Lázaro viesse a ver com os próprios olhos e a crer que Jesus tinha o poder para trazer-lhe a vida novamente. E mais, para que a justiça de Deus se cumprisse na vida daquele que estava morto.
No versículo 14 o Cristo afirma que Lázaro estava morto, pois Ele realmente sabia, mas em seguida declarou: “Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creias” (Jo 11, 15).
Jesus é fascinante! Ele é aquele que tem a autoridade para falar e dar a vida que nós realmente precisamos, por isso que Ele precisou dar a vida novamente a Lázaro. E, a sua palavra tem poder e força sobre nós.
Se pensarmos que os discípulos compreendiam todos os sinais que o Mestre realizava, engano seria o nosso. Pelo contrário, eles eram difíceis para compreender. Quando Jesus os chamou para ir a Betânia foi Tomé que sem entender nada disse: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11, 16).
A vontade de Jesus para os seus não é que eles morram, mas ao contrário, que tenham a vida e a tenham em abundância. Por isso que com a revivificação de Lázaro, Jesus quis ensinar muitas coisas, como a fé, pois ela é a maior e a mais necessária dentre as demais no evangelho de João.
Aprofundando um pouco mais, podemos observar que o termo empregado por João neste texto bíblico para falar de quem dorme foi κεκοίμηται (dorme). O dormir de Lázaro não seria de estar morto (Θάνατος) mas de alguém que está em estado de dormência, como que esperando para ser desperto por outra pessoa. Por isso, facilmente Lázaro escutou a voz do Senhor: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11, 43).
Diante destas verdades simbólicas e reais somos instigados a nos questionar: – Como estamos escutando a voz do Senhor? Será que acreditamos e desejamos que Ele nos liberte do estado de “dormência”, ou a nossa vontade é de permanece como estamos?
O Tempo da Quaresma tem a finalidade de nos tirar dos “estados” de vida em que vivemos para nos dar uma nova vida; aquela apoiada plenamente na pessoa divina de Jesu Cristo, o Filho de Deus.
E concluindo a ação de Jesus na vida de Lázaro encontramos no texto bíblico a seguinte exclamação: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” (v. 44). As ações de desatar e deixar que Lázaro caminhe foram para que, segundo São João Crisóstomo, as pessoas viessem a tocar na obra de Deus e desse modo acreditassem veemente no poder de Deus.
Caríssimos irmãos e irmãs, ao nos aproximar do mistério pascal, a liturgia mediante a este evangelho dominical e em consonância com os evangelhos dos domingos anteriores, nos faz recobrir a nossa consciência de cristãos, a qual nos leva a acreditar verdadeiramente que foi para nos dar a vida que Cristo veio ao mundo. Se perdermos essa verdade de vista, perderemos o sentido quaresmal. Não foi à toa que Cristo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11, 25-26).
Somente quem crê em Jesus Cristo é capaz de experimentar a ressurreição e receber a vida, não essa que é terrena, mas aquela que na sua totalidade e sentido é eterna. Hoje, cantamos com o salmista: “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor escutai a minha voz!” (Sl 129, 1-2). E o Espírito da liturgia, que é o mesmo de Jesus, nos provoca a escutar a voz de Deus para que a justiça de Deus se realize em nós e para que saíamos dos sepulcros e recebamos a vida nova que é mistério e dom de Deus.
Que Deus nos ajude!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)
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