“Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Rei de Israel, hosana nas alturas!”.
Queridos irmãos e irmãs, de maneira muito particular e especial, com esta solene liturgia somos introduzidos ao mistério central de nossa fé cristã (Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo) com as verdades destas palavras: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Rei de Israel, hosana nas alturas!”. Pois hoje acolhemos no meio de nós o Senhor que veio para nos dar a vida, e se Ele sobe a Jerusalém para ser morto, devemos com Ele subir e aclamá-Lo dizendo:“Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Como pode ser Bendito aquele que está prestes a morrer? E por que Ele vem em nome do Senhor?
O apóstolo Paulo nos afirma que Jesus se fez pecado por causa de nossos pecados (2Cor 5, 21). Desse modo, Jesus que não tinha delito algum caminha para morrer no nosso lugar. E é por isso que Ele não mediu esforços e nem pensou duas vezes em nos dar a vida, não aquela que os prazeres deste mundo nos fazem buscar, mas aquela que é realmente eterna. E foi justamente para nos fazer “eternos” que Ele tocou o chão da nossa história!
Caros irmãos e irmãs, antes de nos ater à reflexão que esta liturgia nos oferece por meio dos textos bíblicos, se faz justo e necessário ressaltar a história e origem da solenidade que hoje celebramos, isto é, o Domingo de Ramos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Historicamente este Domingo nasceu de duas tradições da Igreja Antiga. Por um lado, os cristãos da Igreja de Jerusalém no domingo anterior à Páscoa do Senhor costumavam celebrar a entrada de Jesus em Jerusalém. De outro lado, os cristãos pertencentes a Igreja de Roma celebravam a memória da Paixão do Senhor. Ao longo do tempo essas duas tradições foram compreendidas pela Igreja Universal como devidamente importantes, por isso que por boa razão a Igreja optou por confluir as duas tradições na Missa do Domingo de Ramos, a fim de levar os cristãos a celebrarem os dois principais mistérios deste dia, como a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém e a sua Paixão e Morte no monte calvário.
A Liturgia da Palavra deste Domingo é riquíssima e repleta de sentidos que nos permitem viver e tocar no plano de salvação de Deus para nós. Por isso que no início da celebração litúrgica, antes da procissão com os ramos nas mãos, nós, a Igreja de Cristo, somos convidados a escutar a narrativa do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (21, 1-11), em que Jesus atravessa Jerusalém para ser julgado. E durante a celebração, exclusivamente no momento do evangelho, nós somos chamados a experienciar o fato da Paixão do Senhor (Mt 26, 14-27, 66), que através do gênero literário da narrativa, somos inseridos ao mistério quenótico de Nosso Salvador. Mas, por que mistério quenótico?
Meus irmãos e minhas irmãs, o autoesvaziamento (kenosis) de Cristo é o ponto fulcral de hoje. Muitos não a compreendem e poucos são capazes de crer com veemência, porque com muita facilidade todos nós diante deste mistério corremos o risco de vivê-lo e reduzi-lo apenas a emoção e ao sentimentalismo enraizado no modo incorreto de “sentir” e compreender o mistério de nossa fé. É por isso que desejo por meio desta reflexão conduzi-los a não buscar pelo sentimento que esta celebração nos oferece, mas a crer e viver com fé católica, como ressaltou o Concílio Vaticano I pela Constituição Dogmática Dei Filius, porque o mistério que celebramos nesta liturgia nos provoca à adesão total a Jesus Cristo e ao compromisso de vida com Ele, pois afinal, a sua morte não foi em vão!
Recorrendo aos textos bíblicos-litúrgicos de hoje, na primeira leitura (Is 50, 4-7) escutamos: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado” (vv. 6-7). Estas palavras nos inserem ao mistério quenótico, pois este terceiro canto do Servo Sofredor, de modo prefigurado, relatam os sofrimentos de Jesus que fazendo a vontade do Pai veio para trazer a salvação ao seu povo, e este não foi capaz de escutá-Lo. No entanto, com as más atitudes e escolhas essa gente foi audaciosa em “bater” nas suas costas, “arrancar” a sua barba, “bofetear” o rosto daquele que se fez Servo por amor.
Na segunda leitura (Fl 2, 6-11) somos convidados pelo testemunho de Paulo a refletir no autoesvaziamento de Cristo que é testemunho exclusivo de rebaixamento e humilde, pois assim nos escreveu o apóstolo: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (vv. 6-8). Caríssimos, estas fortes palavras nos provocam, porque afirmam que mesmo Cristo sendo Deus, não utilizou de sua divindade para fazer outra coisa a não ser se “esvaziar”, “humilhar-se” e “assumir” a sua condição extrema de Servo, para que a sua morte servisse de salvação para nós, e nos fizesse ainda proclamar com tamanha fé: “Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (v. 11).
O evangelho (Mt 21, 1-11) preliminar à procissão com os ramos possui como objetivo descrever o cumprimento das profecias e das escrituras em Jesus, que em sua entrada triunfal em Jerusalém montado em um jumentinho (vv. 3-7) significou a sua subida para a morte, porque era preciso que Ele voltasse a Jerusalém para morrer. Enquanto a narrativa da Paixão (Mt 26, 14-27, 66) apresenta Jesus sendo interrogado e condenado à morte sob Pôncio Pilatos. Diante destas verdades factuais, somos motivados a meditar a respeito da necessidade do Filho de Deus em morrer e quem é que o condenou à morte.
De acordo com o texto da narrativa, ao cair da tarde, Jesus estando com os seus discípulos se pôs a mesa, e enquanto ceiava com eles afirmou: “Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair” (Mt 26, 21). Logo em seguida, os discípulos resolveram perguntar: “Senhor, será que sou eu?” (v. 22). Sem sombra de dúvidas, a pergunta dos discípulos é um tanto temerosa e repleta de dúvidas. E diante desse acontecimento podemos nos perguntar: – Por que haveria dúvidas por parte daqueles que estiveram o tempo todo ao lado do Messias? Por acaso, alguém dentre eles não foi capaz de compreender a mensagem do Senhor?
O texto-bíblico retrata que todos, um por um, fizeram a pergunta a Jesus. No entanto, o evangelista realça o questionamento de Judas Iscariotes por meio da indagação: “Mestre, serei eu?” (v. 25). A resposta de Jesus foi a altura da pergunta do traidor, uma vez que o texto traz da seguinte maneira: “Tu o dizes” (v. 25). São João Crisóstomo em suas catequeses afirmava que a resposta do Mestre foi respeitosa e acolhedora, porque mesmo que Ele soubesse da maldade de Judas, Ele desejava que o seu discípulo mudasse de atitude e “voltasse atrás” com o seu propósito maléfico.
Está forte perspectiva da narrativa de hoje nos leva a questionar: – O que levou Judas a trair Jesus com 30 moedas de prata? Ele não entendeu a dinâmica do discipulado?
Caríssimos irmãos e irmãs, Judas era discípulo do Filho de Deus. Comia do mesmo pão e bebia do mesmo cálice. Ele possuiu o privilégio que todos nós gostaríamos de ter tido, pois ele esteve ao lado Daquele que veio para salvar a humanidade, mas no final das contas, Judas não soube compreender a finalidade da mensagem de Nosso Senhor.
E se eu lhes dissesse que ainda existem muitas pessoas com o “espírito” de Judas na Igreja, que traem o Cristo simplesmente por 30 moedas da falta de fé convicta; do fechamento às propostas do Reino; da falta de comprometimento em nossas comunidades eclesiais e da caridade humana. Basta que olhemos para o cenário das guerras. Toda guerra não começa a partir do externo, e sim do interno. Porque é no coração dos homens que brota a maldade (Mt 15, 19).
Se olharmos para as nossas igrejas, elas estão cheias de pessoas, mas vazias de gente com fé verdadeira. Este fenômeno não é recente, mas é cada vez mais crescente. É fácil ser católico de Missa dominical apenas por preceito, porque difícil mesmo é ter comprometimento. Diante disto eu os questiono: – Será que vocês que vão à Missa aos finais de semana estão compreendendo a mensagem do evangelho? E indo um pouco além: – Será que todos nós vivenciamos bem o Tempo da Quaresma? Que lições concretas poderemos dela tirar para a nossa vida?
É muito fácil escutar no evangelho e ouvir a homilia de quem é constituído a transmitir a mensagem da salvação. Mas, será fácil rezá-la e vivê-la? Eis a grande dificuldade!
Um escritor cristão do século V chamado Próspero de Aquitânia e supostamente discípulo de Santo Agostinho certa vez afirmou: “Lex orandi, lex credenti, lex vivendi”; que em outras palavras seria: o que se reza é o que se crê e a maneira em que se vive. Irmãos e irmãs, mediante esta tríade axiomática os convido a refletir sobre o nosso modo de rezar, de crer e de viver.
Hoje Jesus sobe à Jerusalém para ser morto e realmente morre por amor nós. Estes dois acontecimentos devem nos levar a rezar para que possamos crer e viver os mistérios de Deus. O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor tem por finalidade nos iniciar às celebrações do mistério pascal, e justamente por esse motivo que passaremos a Samana Santa rezando, crendo e vivendo o mistério da nossa salvação. E, desejo que a sua e a nossa oração não seja diferente da Igreja. Que nestes dias vindouros participemos dos mesmos sentimentos e amarguras do Esposo que é Cristo, para que nos acheguemos exultantes na Páscoa. E se não rezarmos com a Igreja, com ela e nela, nós seremos como Judas, traidores da fé!
Esta liturgia nos permite alinhar em nós as dimensões do rezar, crer e viver, para que o mistério que celebraremos e viveremos ao longo desta Semana Maior não seja reduzido ao mero sentimentalismo, o qual muitas vezes nos leva a sairmos da igreja comovidos por acompanharmos, por exemplo, hoje a entrada de Jesus em Jerusalém com os nossos ramos nas mãos, e tampouco pertencermos estagnados na emoção ao presenciarmos, pelo mistério atualizado na Palavra, o Cristo que sofre a Paixão e por carregar o peso dos nossos pecados morre na cruz. Pelo contrário, devemos ter a consciência madura e fé convicta de que este mistério verdadeiramente atualiza em nós a graça eficaz que recebemos no dia do nosso batismo.
Caríssimos, que tenhamos a certeza de que o Filho de Deus não morreu com pena da humanidade. Mas para que esta fosse salva através de sua entrega e autoesvaziamento total na cruz. Por isso não devemos ter “pena” de Jesus, mas deixarmos ser alcançados pelo Espírito da Liturgia que “ora em nós” (Rm 8, 26) e nos conduz a crer que Deus morreu para que nós obtivéssemos a vida em abundância (Jo 10, 10).
Que Deus nos dê a graça de uma Semana que seja Santa!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)
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