quinta-feira, 2 de abril de 2026

Quinta-feira Santa – Missa Vespertina da Ceia do Senhor – Ano A

 “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, nesta Quinta-feira Santa celebramos solenemente a Ceia do Senhor. Para nós católicos este dia é inigualável, pois celebramos duas instituições, ou melhor, dois sacramentos: o sacerdócio (Ordem) e a Eucaristia. Providencialmente, a Igreja todos os anos, por meio da liturgia, inaugura o Tríduo Pascal justamente a partir desses dois sacramentos para recordar que o verdadeiro e único sacrifício é de Jesus Cristo, o sacerdote que oferece a si mesmo, e a vítima, ao ser reconhecido nas espécies consagradas do Pão e do Vinho. É por isso que na Missa do Crisma, liturgia matutina da Quinta-feira Santa, em muitas dioceses se celebra a instituição do sacerdócio, em que o bispo diocesano unido aos sacerdotes pertencentes ao presbitério diocesano se reúne juntamente com os fiéis leigos para viver a unidade.

 

De modo muito direto e compreensível desejo lhes falar sobre esses dois importantes mistérios que celebramos neste dia: o sacerdócio e a Eucaristia. E a partir deles explicar-lhes as implicações que recebemos de cada um; mesmo que diante do mistério a nossa voz muitas vezes se cale, para que aquilo que se crê produza realmente frutos que sejam abundantes e que permaneçam em nós.

 

No evangelho (Jo 13, 1-15) da Missa da Ceia do Senhor, especificamente no primeiro versículo, nos deparamos com a emblemática afirmação: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai”. Caros irmãos e irmãs, se formos capazes de compreender a intenção do evangelista em registrar esse aceno tão relevante para nós: “Jesus sabia [...]” (Jo 13, 1); não sairemos desta liturgia sem tocar com as próprias mãos, figurativamente falando, o plano de amor de Deus por nós; plano este que nos faz comunhão.

 

A narrativa do evangelho manifesta o desejo de Jesus, o Servo, em colocar-se no meio dos seus discípulos para lavar-lhes os pés, porque Ele sabia que aquela era a sua última refeição com eles, e não podia faltar em deixar-lhes o mandamento novo (o amor) através do gesto de lavar os pés. Desse modo, o texto bíblico-litúrgico nos apresenta as ações do Senhor em tomar a iniciativa para lavar os pés de seus discípulos com as seguintes palavras: “Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13, 3-5).

 

Os verbos acima nos auxiliam a compreender a intenção própria de Jesus com aquele gesto simples e profundo. Por isso, parafraseando os versículos acima: Jesus “levantou-se” da mesa, “tirou” o manto, “pegou” uma toalha, “derramou” água em uma bacia, “começou a lavar” os pés de seus amigos “enxugando-os” com uma toalha. A sequência dessas ações concomitantes se conflui com os gestos do sacerdote na celebração litúrgica, uma vez que as rubricas litúrgicas exigem que o celebrante faça o mesmo que o Cristo fez com os seus amigos: “[...] O sacerdote (tendo retirado a casula, se necessário) aproxima-se de cada uma, lava e enxuga-lhes os pés, auxiliado pelos ministros” (MR, p. 247).

 

O ato de lavar os pés possui por finalidade a união íntima entre o Senhor e os seus discípulos. Se assim não fosse feito, os discípulos não chegariam à conclusão de que para ter parte com o Mestre e Senhor seria necessário primeiro lavar os pés uns dos outros, uma vez que é sempre em decorrência à comunhão com Deus que se obtém a comunhão com os irmãos. Aqui surge a grande problemática dessa passagem, pois o Senhor afirma que: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13, 15).

 

Eu hoje lhes pergunto: – Será que seguimos o exemplo de Jesus? Ou ainda: – É fácil inclinar-se diante dos irmãos para lavar-lhe os pés?

 

Sem sombra de dúvidas, a atitude do Cristo não é para qualquer um. Para fazer o mesmo que Ele fez exige de nós humildade e caridade. Somente alguém que ama sem medidas é capaz de fazer o mesmo que o Mestre ensinou. É por isso que o exemplo deixado por Jesus é para que façamos em sua memória, é o que o cardeal Raniero Cantalamessa compara ao pedido para que se faça memória do que fez o Senhor na última ceia nos evangelhos sinóticos e no testemunho do apóstolo Paulo: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19; 1Cor 11, 24-25).

 

Tanto o exemplo deixado pelo Cristo, quanto o pedido para que se faça em memória Dele não foram em vão, porque ambos são garantes da comunhão. Propositalmente, durante a celebração da Ceia do Senhor, o sacerdote (presbítero) realiza esse mesmo gesto, uma vez que ele é o primeiro a se fazer comunhão com todos. No evangelho de João não existe uma passagem que relate exclusivamente a instituição da Eucaristia, porém, alguns exegetas bíblicos e teólogos apontam que a instituição eucarística em João se prefigura no ato de lavar os pés. E, é por isso que para a comunidade joanina o lava-pés torna a comunhão perfeita.

 

A comunhão primeira que o sacerdote é chamado a demonstrar através do lava-pés nos conduz à comunhão mais íntima e verdadeira, que é a Eucaristia. Ela é o plano de amor de Deus por nós. Deste modo, São Paulo na segunda leitura (1Cor 11, 23-26) sublinha que ele recebera a instrução de que o Cristo na última ceia com os seus discípulos tomou o pão, deu graças e o partiu dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória” (v. 24). De igual modo, Jesus tomando o cálice pronunciou: “Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória” (v. 25).

 

Queridos irmãos e irmãs, não existe comunhão perfeita sem o sacramento da Eucaristia. Sendo assim, é mediante a esses dois sacramentos que celebramos hoje que atendemos ao pedido perpétuo do Senhor para que façamos sempre em sua memória. Neste dia nós lavamos os pés uns dos outros para fazer memória do que Ele fez por primeiro. Igualmente, neste dia o sacerdote sobe a esse altar para oferecer a si mesmo como oferta e vítima salutar, e nós assim fazemos, pois o Corpo entregue e o Sangue derramado é do Cristo-total, isto é, cabeça e corpo, que somos nós a Igreja, como escreve Cantalamessa. Ademais, a mesma memória que Jesus fez ao partir o Pão com os seus discípulos é a mesma que Iahweh fez com o povo no Egito, em que Moisés na primeira leitura (Êx 12,1-8.11-14), falou a toda a comunidade de Israel para que a partir de um ritual fosse instituída perpetuamente a Páscoa, que significa: Passagem do Senhor.

 

Caros irmãos e irmãs, mediante às memórias que fazemos em nome de Deus, somos convidados a perpetuá-las em nós. A comunhão por meio do lava-pés e da Eucaristia não deve ser algo banal para nós, ou ainda, algo que fazemos ao menos uma vez por ano na Quinta-feira Santa, e por isso não damos o devido valor. Uma certeza devemos possuir em nossos corações: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1), por isso Ele nos pediu que a comunhão se vive sempre no amor: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei!” (Jo 13, 34).

 

Que Deus nos ajude!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


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