sábado, 28 de março de 2026

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Ano A

 “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Rei de Israel, hosana nas alturas!”.

 

Queridos irmãos e irmãs, de maneira muito particular e especial, com esta solene liturgia somos introduzidos ao mistério central de nossa fé cristã (Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo) com as verdades destas palavras: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Rei de Israel, hosana nas alturas!”. Pois hoje acolhemos no meio de nós o Senhor que veio para nos dar a vida, e se Ele sobe a Jerusalém para ser morto, devemos com Ele subir e aclamá-Lo dizendo:“Bendito o que vem em nome do Senhor!”.


Como pode ser Bendito aquele que está prestes a morrer? E por que Ele vem em nome do Senhor?

 

O apóstolo Paulo nos afirma que Jesus se fez pecado por causa de nossos pecados (2Cor 5, 21). Desse modo, Jesus que não tinha delito algum caminha para morrer no nosso lugar. E é por isso que Ele não mediu esforços e nem pensou duas vezes em nos dar a vida, não aquela que os prazeres deste mundo nos fazem buscar, mas aquela que é realmente eterna. E foi justamente para nos fazer “eternos” que Ele tocou o chão da nossa história!

 

Caros irmãos e irmãs, antes de nos ater à reflexão que esta liturgia nos oferece por meio dos textos bíblicos, se faz justo e necessário ressaltar a história e origem da solenidade que hoje celebramos, isto é, o Domingo de Ramos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Historicamente este Domingo nasceu de duas tradições da Igreja Antiga. Por um lado, os cristãos da Igreja de Jerusalém no domingo anterior à Páscoa do Senhor costumavam celebrar a entrada de Jesus em Jerusalém. De outro lado, os cristãos pertencentes a Igreja de Roma celebravam a memória da Paixão do Senhor. Ao longo do tempo essas duas tradições foram compreendidas pela Igreja Universal como devidamente importantes, por isso que por boa razão a Igreja optou por confluir as duas tradições na Missa do Domingo de Ramos, a fim de levar os cristãos a celebrarem os dois principais mistérios deste dia, como a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém e a sua Paixão e Morte no monte calvário.

 

A Liturgia da Palavra deste Domingo é riquíssima e repleta de sentidos que nos permitem viver e tocar no plano de salvação de Deus para nós. Por isso que no início da celebração litúrgica, antes da procissão com os ramos nas mãos, nós, a Igreja de Cristo, somos convidados a escutar a narrativa do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (21, 1-11), em que Jesus atravessa Jerusalém para ser julgado. E durante a celebração, exclusivamente no momento do evangelho, nós somos chamados a experienciar o fato da Paixão do Senhor (Mt 26, 14-27, 66), que através do gênero literário da narrativa, somos inseridos ao mistério quenótico de Nosso Salvador. Mas, por que mistério quenótico?

 

Meus irmãos e minhas irmãs, o autoesvaziamento (kenosis) de Cristo é o ponto fulcral de hoje. Muitos não a compreendem e poucos são capazes de crer com veemência, porque com muita facilidade todos nós diante deste mistério corremos o risco de vivê-lo e reduzi-lo apenas a emoção e ao sentimentalismo enraizado no modo incorreto de “sentir” e compreender o mistério de nossa fé. É por isso que desejo por meio desta reflexão conduzi-los a não buscar pelo sentimento que esta celebração nos oferece, mas a crer e viver com fé católica, como ressaltou o Concílio Vaticano I pela Constituição Dogmática Dei Filius, porque o mistério que celebramos nesta liturgia nos provoca à adesão total a Jesus Cristo e ao compromisso de vida com Ele, pois afinal, a sua morte não foi em vão!

 

Recorrendo aos textos bíblicos-litúrgicos de hoje, na primeira leitura (Is 50, 4-7) escutamos: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado” (vv. 6-7). Estas palavras nos inserem ao mistério quenótico, pois este terceiro canto do Servo Sofredor, de modo prefigurado, relatam os sofrimentos de Jesus que fazendo a vontade do Pai veio para trazer a salvação ao seu povo, e este não foi capaz de escutá-Lo. No entanto, com as más atitudes e escolhas essa gente foi audaciosa em “bater” nas suas costas, “arrancar” a sua barba, “bofetear” o rosto daquele que se fez Servo por amor.

 

Na segunda leitura (Fl 2, 6-11) somos convidados pelo testemunho de Paulo a refletir no autoesvaziamento de Cristo que é testemunho exclusivo de rebaixamento e humilde, pois assim nos escreveu o apóstolo: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (vv. 6-8). Caríssimos, estas fortes palavras nos provocam, porque afirmam que mesmo Cristo sendo Deus, não utilizou de sua divindade para fazer outra coisa a não ser se “esvaziar”, “humilhar-se” e “assumir” a sua condição extrema de Servo, para que a sua morte servisse de salvação para nós, e nos fizesse ainda proclamar com tamanha fé: “Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (v. 11).

 

O evangelho (Mt 21, 1-11) preliminar à procissão com os ramos possui como objetivo descrever o cumprimento das profecias e das escrituras em Jesus, que em sua entrada triunfal em Jerusalém montado em um jumentinho (vv. 3-7) significou a sua subida para a morte, porque era preciso que Ele voltasse a Jerusalém para morrer. Enquanto a narrativa da Paixão (Mt 26, 14-27, 66) apresenta Jesus sendo interrogado e condenado à morte sob Pôncio Pilatos. Diante destas verdades factuais, somos motivados a meditar a respeito da necessidade do Filho de Deus em morrer e quem é que o condenou à morte.

 

De acordo com o texto da narrativa, ao cair da tarde, Jesus estando com os seus discípulos se pôs a mesa, e enquanto ceiava com eles afirmou: “Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair” (Mt 26, 21). Logo em seguida, os discípulos resolveram perguntar: “Senhor, será que sou eu?” (v. 22). Sem sombra de dúvidas, a pergunta dos discípulos é um tanto temerosa e repleta de dúvidas. E diante desse acontecimento podemos nos perguntar: – Por que haveria dúvidas por parte daqueles que estiveram o tempo todo ao lado do Messias? Por acaso, alguém dentre eles não foi capaz de compreender a mensagem do Senhor?

 

O texto-bíblico retrata que todos, um por um, fizeram a pergunta a Jesus. No entanto, o evangelista realça o questionamento de Judas Iscariotes por meio da indagação: “Mestre, serei eu?” (v. 25). A resposta de Jesus foi a altura da pergunta do traidor, uma vez que o texto traz da seguinte maneira: “Tu o dizes” (v. 25). São João Crisóstomo em suas catequeses afirmava que a resposta do Mestre foi respeitosa e acolhedora, porque mesmo que Ele soubesse da maldade de Judas, Ele desejava que o seu discípulo mudasse de atitude e “voltasse atrás” com o seu propósito maléfico.

 

Está forte perspectiva da narrativa de hoje nos leva a questionar: – O que levou Judas a trair Jesus com 30 moedas de prata? Ele não entendeu a dinâmica do discipulado?

 

Caríssimos irmãos e irmãs, Judas era discípulo do Filho de Deus. Comia do mesmo pão e bebia do mesmo cálice. Ele possuiu o privilégio que todos nós gostaríamos de ter tido, pois ele esteve ao lado Daquele que veio para salvar a humanidade, mas no final das contas, Judas não soube compreender a finalidade da mensagem de Nosso Senhor.

 

E se eu lhes dissesse que ainda existem muitas pessoas com o “espírito” de Judas na Igreja, que traem o Cristo simplesmente por 30 moedas da falta de fé convicta; do fechamento às propostas do Reino; da falta de comprometimento em nossas comunidades eclesiais e da caridade humana. Basta que olhemos para o cenário das guerras. Toda guerra não começa a partir do externo, e sim do interno. Porque é no coração dos homens que brota a maldade (Mt 15, 19).

 

Se olharmos para as nossas igrejas, elas estão cheias de pessoas, mas vazias de gente com fé verdadeira. Este fenômeno não é recente, mas é cada vez mais crescente. É fácil ser católico de Missa dominical apenas por preceito, porque difícil mesmo é ter comprometimento. Diante disto eu os questiono: – Será que vocês que vão à Missa aos finais de semana estão compreendendo a mensagem do evangelho? E indo um pouco além: – Será que todos nós vivenciamos bem o Tempo da Quaresma? Que lições concretas poderemos dela tirar para a nossa vida?

 

É muito fácil escutar no evangelho e ouvir a homilia de quem é constituído a transmitir a mensagem da salvação. Mas, será fácil rezá-la e vivê-la? Eis a grande dificuldade!

 

Um escritor cristão do século V chamado Próspero de Aquitânia e supostamente discípulo de Santo Agostinho certa vez afirmou: “Lex orandi, lex credenti, lex vivendi”; que em outras palavras seria: o que se reza é o que se crê e a maneira em que se vive. Irmãos e irmãs, mediante esta tríade axiomática os convido a refletir sobre o nosso modo de rezar, de crer e de viver.

 

Hoje Jesus sobe à Jerusalém para ser morto e realmente morre por amor nós. Estes dois acontecimentos devem nos levar a rezar para que possamos crer e viver os mistérios de Deus. O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor tem por finalidade nos iniciar às celebrações do mistério pascal, e justamente por esse motivo que passaremos a Samana Santa rezando, crendo e vivendo o mistério da nossa salvação. E, desejo que a sua e a nossa oração não seja diferente da Igreja. Que nestes dias vindouros participemos dos mesmos sentimentos e amarguras do Esposo que é Cristo, para que nos acheguemos exultantes na Páscoa. E se não rezarmos com a Igreja, com ela e nela, nós seremos como Judas, traidores da fé!

 

Esta liturgia nos permite alinhar em nós as dimensões do rezar, crer e viver, para que o mistério que celebraremos e viveremos ao longo desta Semana Maior não seja reduzido ao mero sentimentalismo, o qual muitas vezes nos leva a sairmos da igreja comovidos por acompanharmos, por exemplo, hoje a entrada de Jesus em Jerusalém com os nossos ramos nas mãos, e tampouco pertencermos estagnados na emoção ao presenciarmos, pelo mistério atualizado na Palavra, o Cristo que sofre a Paixão e por carregar o peso dos nossos pecados morre na cruz. Pelo contrário, devemos ter a consciência madura e fé convicta de que este mistério verdadeiramente atualiza em nós a graça eficaz que recebemos no dia do nosso batismo.

 

Caríssimos, que tenhamos a certeza de que o Filho de Deus não morreu com pena da humanidade. Mas para que esta fosse salva através de sua entrega e autoesvaziamento total na cruz. Por isso não devemos ter “pena” de Jesus, mas deixarmos ser alcançados pelo Espírito da Liturgia que “ora em nós” (Rm 8, 26) e nos conduz a crer que Deus morreu para que nós obtivéssemos a vida em abundância (Jo 10, 10).

 

Que Deus nos dê a graça de uma Semana que seja Santa!


                                                (Luís Guilherme Santos da Rocha)


sábado, 21 de março de 2026

5º Domingo do Tempo da Quaresma – Ano A

 “Fazei justiça, ó Deus, e defendei-me contra a gente impiedosa; do homem perverso e mentiroso libertai-me, ó Senhor! Sois vós o meu Deus e meu refúgio” (Sl 42, 1-2)

 

Caros irmãos e irmãs, no domingo passado meditamos sobre o mistério da luz, que é Cristo. O único capaz de curar a nossa cegueira, nos fazer enxergar com os olhos da fé e nos permitir viver uma nova vida. Hoje celebramos o 5º Domingo do Tempo da Quaresma, por meio do qual somos inseridos no mistério da vida nova em Cristo.

 

O salmo da Antífona de entrada nos recorda a confiança com que devemos possuir nos cuidados e na proteção de Deus, os quais nos vem mediante a sua justiça, pois ela comprova em nós a bondade de Deus e nos direciona à sua santa vontade. Podemos nos perguntar:  – Em quem consiste a nossa justiça? A justiça de daqueles que creem consiste em Deus. Somente Ele pode nos oferecer o que mais necessitamos, por este motivo que cantamos hoje com salmista no início da celebração: “Fazei justiça, ó Deus [...] Sois vós o meu Deus e meu refúgio” (Sl 42, 1-2).

 

Na primeira leitura (Ez 37, 12-14) escutamos a profecia de Ezequiel, o qual como porta-voz de Deus dirigiu-se ao povo para lhes dizer: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (v. 12). Esta leitura, em seu contexto histórico, visa anunciar ao povo que estava no exílio babilônico, sobre uma esperança na volta para a Terra de Israel. No entanto, por se tratar de Ez 37, a volta para a Terra significava muito mas do que uma simples volta à pátria, mas a união dos reinos de Israel e Judá que havia se divido e estavam dispersos.

 

Para Deus, a devolutiva da Terra em favor de seu povo consistia, de maneira figurada, a abertura da sepultura (libertação do exílio) e o recebimento do espírito, como forma de tirá-los da realidade de morte para a vida, e somente o Espírito é capaz de garantir a vida. Desse modo, paralelamente à primeira leitura, na segunda (Rm 8, 8-11) o apóstolo Paulo advertiu a comunidade de Roma para que vivessem não segundo a carne, mas conforme o Espírito de Jesus, uma vez que é o Espírito quem confere a vida e o pertencimento a Jesus Cristo, graças a justiça (vv. 8-11). E, esta justiça, a mesma salientada na Antífona de entrada, se vive somente mediante a fé em Cristo Jesus (Rm 1, 7).

 

O evangelho (Jo 11, 1-45), coroamento de toda esta liturgia da Palavra, nos conduz a meditar ao mistério que nos aproxima mormente da Páscoa: a vida nova! Assim sendo, no início do capítulo 11 de João vemos a narrativa da ressurreição de Lázaro, irmão de Marta e Maria. Por esse relato nos deparamos com o dado de que Jesus, mesmo sendo amigo de Lázaro, retornou à casa de Marta e Maria depois de quatros dias que seu irmão havia morrido.

 

Diante da cena evangélica, Marta e Maria estavam desesperadas, a ponto de Marta exclamar reivindicando a vida de seu irmão: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá” (Jo 11, 21-22). Aqui, queridos irmãos e irmãs, vemos o importante salto de fé de Marta, a qual mesmo se lamentando acredita no poder de Deus porque tinha fé em seu coração.

 

É justo e necessário evidenciar que no evangelho de João o ponto central é a necessidade da fé na pessoa de Jesus Cristo, porque Ele é o Verbo de Deus, que se fez carne e morada entre nós (Jo 1, 14). É justamente por esse motivo que em todo o evangelho joanino o evangelista procurar exprimir pelos feitos de Jesus os sinais sensíveis capazes de conduzir a sua comunidade a verdadeiramente crer no Filho de Deus.

 

Dando continuidade ao texto bíblico do evangelho nos deparamos com a resposta categórica de Jesus à Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” (Jo 11, 25-26). Reparemos que propositalmente Jesus reivindicou aquilo que lhe pertencia, isto é, a fé de Marta, a fim de que Ele realizasse a sua obra: “Crês isto?” (v. 26). Na sequência vemos a presença de alguns judeus que mesmo não crendo foram audaciosos em questionar dizendo: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” (v. 37). Diante disto, o evangelista fez questão de colocar que Jesus ficou novamente comovido (v. 38).

 

A comoção do Cristo nesta página do evangelho de João pode ser entendida muitas vezes como a emoção de alguém que teve o conhecimento da morte de uma pessoa muito especial e importante. Porém, lhes chamo a atenção para a comoção de Deus.


Por acaso, Deus se comove? Se sim, até que ponto?

 

O texto grego descreve o sentimento do Filho de Deus da seguinte forma: ἐμβριμώμενος ἐν ἑαυτῷ (gemendo em si mesmo). Esse “gemido” interno evoca a realidade de extrema indignação diante do acontecimento. Por isso que nos versículos anteriores Jesus se comove muito, e repito: Ele realmente se comoveu! A ponto dos judeus perceberem e afirmarem: “Vede como ele o amava!” (Jo 11, 36).


É justamente na sensação de indignação e comoção, que o Cristo antes de ordenar a Lázaro que saísse daquele estado de morte orou ao Pai dando-Lhe graças por ouvi-Lo e revivificar Lázaro, para que o povo acreditasse que Ele foi enviado (v. 41). Santo Hilário acentua que Jesus não precisava orar, mas orou por causa daqueles que estavam junto Dele, a fim de que viessem a saber que Ele era o Filho enviado do Pai e pudessem ter a fé beneficiada. Ante a este comentário poderíamos intuir que o desejo de Jesus era confirmar a fé daqueles que já possuíam fé, e levar os que não tinham fé a acreditar realmente na sua pessoa divina.

 

Por fim, o Filho do Pai, diante dos que estavam presentes ao túmulo, dirigiu a Lázaro, que estava morto há quatro dias, as seguintes palavras de ordem: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11, 43). Em outras palavras, Jesus ordenou a Lázaro que saísse daquela condição de morte. E aqui está o ponto alto dessa passagem e de toda a liturgia deste domingo: – Se Jesus, que é Deus, se comoveu realmente pela morte de seu amigo Lázaro, por que Ele “precisou” revivificá-lo novamente?


A revivificação, substantivo mais correto para falarmos sobre o que muitos chamam de “ressurreição” de Lázaro, serviu para um único objetivo, isto é, para que aqueles que presenciaram a morte de Lázaro viesse a ver com os próprios olhos e a crer que Jesus tinha o poder para trazer-lhe a vida novamente. E mais, para que a justiça de Deus se cumprisse na vida daquele que estava morto.


No versículo 14 o Cristo afirma que Lázaro estava morto, pois Ele realmente sabia, mas em seguida declarou: “Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creias” (Jo 11, 15).


Jesus é fascinante! Ele é aquele que tem a autoridade para falar e dar a vida que nós realmente precisamos, por isso que Ele precisou dar a vida novamente a Lázaro. E, a sua palavra tem poder e força sobre nós.


Se pensarmos que os discípulos compreendiam todos os sinais que o Mestre realizava, engano seria o nosso. Pelo contrário, eles eram difíceis para compreender. Quando Jesus os chamou para ir a Betânia foi Tomé que sem entender nada disse: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11, 16).


A vontade de Jesus para os seus não é que eles morram, mas ao contrário, que tenham a vida e a tenham em abundância. Por isso que com a revivificação de Lázaro, Jesus quis ensinar muitas coisas, como a fé, pois ela é a maior e a mais necessária dentre as demais no evangelho de João.


Aprofundando um pouco mais, podemos observar que o termo empregado por João neste texto bíblico para falar de quem dorme foi κεκοίμηται (dorme). O dormir de Lázaro não seria de estar morto (Θάνατος) mas de alguém que está em estado de dormência, como que esperando para ser desperto por outra pessoa. Por isso, facilmente Lázaro escutou a voz do Senhor: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11, 43).


Diante destas verdades simbólicas e reais somos instigados a nos questionar: – Como estamos escutando a voz do Senhor? Será que acreditamos e desejamos que Ele nos liberte do estado de “dormência”, ou a nossa vontade é de permanece como estamos?


O Tempo da Quaresma tem a finalidade de nos tirar dos “estados” de vida em que vivemos para nos dar uma nova vida; aquela apoiada plenamente na pessoa divina de Jesu Cristo, o Filho de Deus.


E concluindo a ação de Jesus na vida de Lázaro encontramos no texto bíblico a seguinte exclamação: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” (v. 44). As ações de desatar e deixar que Lázaro caminhe foram para que, segundo São João Crisóstomo, as pessoas viessem a tocar na obra de Deus e desse modo acreditassem veemente no poder de Deus.

 

Caríssimos irmãos e irmãs, ao nos aproximar do mistério pascal, a liturgia mediante a este evangelho dominical e em consonância com os evangelhos dos domingos anteriores, nos faz recobrir a nossa consciência de cristãos, a qual nos leva a acreditar verdadeiramente que foi para nos dar a vida que Cristo veio ao mundo. Se perdermos essa verdade de vista, perderemos o sentido quaresmal. Não foi à toa que Cristo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11, 25-26).

 

Somente quem crê em Jesus Cristo é capaz de experimentar a ressurreição e receber a vida, não essa que é terrena, mas aquela que na sua totalidade e sentido é eterna. Hoje, cantamos com o salmista: “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor escutai a minha voz!” (Sl 129, 1-2). E o Espírito da liturgia, que é o mesmo de Jesus, nos provoca a escutar a voz de Deus para que a justiça de Deus se realize em nós e para que saíamos dos sepulcros e recebamos a vida nova que é mistério e dom de Deus.

 

Que Deus nos ajude!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


sábado, 14 de março de 2026

4º Domingo do Tempo da Quaresma – Ano A

 “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, somos introduzidos na quarta semana do tempo quaresmal a partir das verdades que o salmista nos oferece em seu canto: “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10). Se no domingo passado meditamos acerca do mistério da sede, do qual nos brota a certeza de que Jesus Cristo é a fonte da Água viva, hoje somos convocados a um outro mistério: a luz! Pois é por intermédio dessa luz que contemplamos a verdadeira Luz.


A primeira leitura deste domingo (1Sm 16, 1b.6-7.10-13a) nos situa sobre o relato da escolha e eleição de Davi, o qual fora ungido pelo profeta Samuel para ser o rei de Israel. No entanto, diante deste fato encontramos aquilo que podemos chamar de “contradição dialética”, pois conforme o texto bíblico, Samuel foi enviado por Iahweh à casa de Jessé na região de Belém para ungir com óleo, ou seja, eleger um filho daquela casa. No primeiro momento o profeta viu Eliab, o filho mais velho de Jessé, e deduziu facilmente que seria ele, uma vez que era o mais velho e provavelmente o mais forte. A resposta de Deus foi o fator crucial dessa eleição, pois assim foi dito: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei” (v. 7). E continuando Ele disse: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 7b).


As respostas de Deus ao profeta Samuel nos conduzem a alguns questionamentos cabíveis, como por exemplo:  – O que consiste em olhar o coração? Deus elege alguém com um coração diferente das demais pessoas?


Queridos irmãos e irmãs, fazendo um adendo a respeito do tempo litúrgico em que vivemos, é preciso que nós possuamos a devida consciência de que o período quaresmal tem por finalidade conduzir todos os fiéis à Festa da Luz, ou melhor, à Páscoa do Senhor. É por esse motivo que a Igreja na Quaresma, desde os séculos IV e V, prepara os catecúmenos para o sacramento do batismo através de catequeses e escrutínios, para que seguindo o itinerário intenso de purificação e iluminação, os catecúmenos cheguem às águas do batismo na noite santa da Vigília Pascal. Além disso, é certo que a pedagogia deste tempo sacrossanto nos prepara para participar de maneira ativa e frutuosamente dos mistérios do Senhor. Contudo, para bem participarmos é necessário nutrir em nós através desta liturgia dominical uma alegria esperançosa, sinalizada pela cor litúrgica rosa, a qual nos garante que estamos próximos da Páscoa do Senhor.


Dando continuidade ao relato bíblico da primeira leitura devemos observar que nele se condensa muitos elementos simbólicos que podem nos situar diante de Deus e da eleição que Ele nos faz. É por isso que nesta leitura são apresentados os sete primeiros filhos de Jessé, mas faltava ainda o oitavo filho. Este passava boa parte de seu tempo nos campos de Éfrata cuidando de suas ovelhas, e não tinha a mesma aparência e estatura de seus sete irmãos (1Sm 16, 7). Mas, existia um fator que o diferenciava e tornava-o escolhido, isto é, o seu coração, que no hebraico לַלֵּבָ (coração), cuja forma transliterada (leb), significa o “lugar” mais íntimo e mais profundo que somente Deus conhece.


O coração de Davi era um coração de pastor. Aqui está o ponto alto dessa passagem bíblica, visto que jamais alguém escolhe ser pastor, mas antes é o chamado ao pastoreio que escolhe alguém dentre os homens para exercer esse belo ofício. Por isso, caros irmãos e irmãs, Deus olhou para o coração de Davi e o elegeu dentre os demais, não porque ele seria melhor ou superior, mas o essencial para a missão que futuramente lhe seria confiada, isto é, de ser rei-pastor. Em outras palavras, Deus ungiu a Davi para ser rei, porque seria por intermédio do seu reinado que ele seria salvo; mesmo que ele viesse a pecar como fez tantas vezes.


O evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o encontro decisivo e marcante de Jesus com um cego de nascença. O texto nos afirma que: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Neste primeiro versículo nos deparamos com a primeira e principal ação do Senhor, que foi a sua visão. O emprego do verbo grego εἶδεν (viu) remete à ideia de que Jesus ao passar por aquele homem, viu não somente a sua condição física, porém, antes reconheceu a sua necessidade de ser curado e se tornar outra pessoa. Aqui, em sentido paralelo à primeira leitura, podemos concluir que a grande maioria das pessoas enxergariam a condição enferma daquele homem cego, por isso parariam na aparência e na estatura (1Sm 16, 7). No entanto, Deus enxerga sempre a necessidade que brota do coração.


A pergunta dos discípulos de Jesus foi crucial: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9, 2). Os discípulos, pela lei, supuseram que a causa da cegueira daquele homem viria do pecado dos pais ou dele mesmo. Porém, a resposta de Jesus a eles deixou claro que não foram os pais que pecaram e tampouco ele próprio, mas para que a sua cegueira servisse para manifestar as obras de Deus através dele (v. 3).

Ante a afirmação do Mestre poderíamos perguntar ao evangelista: – Se ninguém pecou para que o homem cego de nascença obtivesse a cegueira, como é que poderíamos conceber a ideia de que o seu estado de cegueira seria para manifestar as obras de Deus? Ou ainda: – Deus se alegra com a enfermidade?


A resposta para nós é óbvia e se encontra no próprio relato bíblico. A cegueira foi o meio para que Jesus notasse aquele homem: “Jesus viu” (v. 1). E detalhe: a cegueira não compunha o ser, e sim o estado de vida do homem cego. Por esse motivo, o Senhor foi ao encontro da pessoa do cego de nascença e para curar a sua enfermidade, porque o que mais importa para Deus é a vida em sua integralidade.


Queridos irmãos e irmãs, estamos a todo momento cegos e necessitados de luz, por isso que o Senhor sempre vem ao encontro de nossa pessoa e de nosso estado de alma necessitada de cura e de cuidado. Devemos refletir qual é a nossa “enfermidade”, muitas vezes traduzida em pecados, escolhas erradas e falsas compreensões de nós mesmos e das realidades em que vivemos.


Indo adiante, Jesus alega ser a luz do mundo (Jo 9, 5), e seguindo o texto Ele agiu do seguinte modo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’ (que quer dizer: Enviado)” (vv. 6-7). Este gesto “sacramental” do Senhor comprova a compaixão com que Ele sentiu ao ver a condição e a reconhecer a necessidade daquele pobre homem em querer enxergar.


Caros irmãos e irmãs, imaginemos o estado de escuridão e trevas que aquele homem cego vivia. Até aquele momento presente ele jamais tinha visto a luz. É por isso que ele atendeu prontamente a ordem de Jesus em lavar-se na piscina de Silóe. O ato de lavar-se “chancelou” a cura daquele homem, isto não significa que as ações do Cristo precisam de “chancela”; pelo contrário, elas exigem de quem recebe a cura, a participação ativa no milagre. Desse modo, a ação do homem cego em lavar-se na piscina representa o seu consentimento; como se ele cresse na cura que Jesus havia realizado. Entretanto, isso não bastava, porque algo ainda lhe faltava, ou seja, crer não somente na obra (cura) do Cristo em sua vida, mas aderir-se totalmente a Ele, por meio da profissão de fé que trataremos a seguir.


Conforme o texto do evangelho, o homem, que era cego, ao ser identificado pelas pessoas foi visto diferente do que era antes. Certamente o toque “sacramental” do Filho do Homem fez com que ele, em sentido paralelo à primeira leitura, mudasse de aparência e de estatura (1Sm 16, 7), visto que as pessoas que o conheciam não foram capazes de reconhecê-lo depois do milagre. Outros ainda, como os fariseus não foram capazes de notar a transformação daquele homem, porque estavam fechados à graça e atrelados tão somente às leis e ao sábado (Jo 9, 13-17). Por isso que eles interrogaram não somente o homem que era cego, mas inclusive a sua família (vv. 19-23), pois não acreditavam nos feitos, e tampouco na pessoa de Jesus Cristo.


Mais adiante vemos que a resposta dos fariseus ao homem que passou a enxergar foi a expulsão dele da comunidade judaica. Todavia, algo novo aconteceu na vida dele. O Cristo lhe apareceu novamente e o interrogou: “Acreditas no Filho do Homem?” (Jo 9, 35). Até aquele momento o curado acreditava na cura que ele havia recebido, mas ainda não acreditava em Jesus, o Cristo. Por isso ele perguntou: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” (v. 36). E Jesus lhe disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo” (v. 37). Naquele instante a resposta e atitude de fé daquele homem fizeram com que ele obtivesse a cura por inteira: “‘Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus” (v. 38).


Desta liturgia devemos tirar uma lição para a vida: nós “estamos” sempre cegos. Por isso que um dia fomos levados à pia batismal, ao útero da Igreja, para recebermos o sacramento do batismo e enxergarmos com os olhos da fé a luz que é Cristo. Mesmo assim poderíamos nos perguntar: – Se pelo batismo recebemos a Luz, por que em nós ainda moram as trevas que nos faz sermos cegos?


Eis aqui, caros irmãos e irmãs, um notável paradoxo. Este não deve nos espantar, ao contrário, deve nos fazer compreender que ainda não estamos prontos. Particularmente, gosto de pensar que a visão de Deus para nós é mirabolante, pois Ele nos enxerga “lá na frente”, no momento exato em que estaremos prontos para o céu. As fortes palavras de Santo Irineu de Lião, Padre e Doutor da Igreja nos apontam para essa mesma ideia de visão, pois desse modo ele afirmou: “Gloria Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei”, isto é, a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.


Deus é aquele que sempre nos vê de perto, pois para Ele não existe visão turva ou distanciada. A visão Dele é sempre cuidadora, pois assim nos canta e declara o salmista na liturgia deste domingo: “O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma (Sl 23, 1). E em decorrência a esta verdade, o cardeal Raniero Cantalamessa sublinha algo que pode nos levar a refletir a respeito do tema da “visão”. Para ele, a fé é capaz de nos oferecer uma visão sempre nova da vida. Diante disso eu te pergunto: – Que visão você tem da sua vida? Por acaso, essa visão é clara e verdadeira?


Meus irmãos e minhas irmãs, nós temos um tesouro inviolável dentro de nós, que é a fé. Por isso, precisamos tomar cuidado com o que estamos fazendo com esse tesouro. A exortação de Jesus em outra passagem do evangelho: “Onde está o teu coração, aí está o teu tesouro” (Mt 6, 21); deixa mais evidente a preocupação com que devemos ter com o nosso tesouro, a ponto de nos levar ainda a refletir com outras palavras esse pensamento: Onde está a tua fé, aí está a tua vida!


Certamente, Deus conhecia o coração de Davi, ou em outras palavras, Ele conhecia a vida daquele jovem pastor. De igual modo, o Filho do Homem ao reconhecer a condição daquele homem que era cego de nascença, conhecia a sua vida, a ponto de dar a ele a luz que tanto necessitava: a fé!


É a fé que nos conduz ao mistério que meditamos neste 4º Domingo do Tempo da Quaresma. Sem ela não enxergaremos a luz que é Cristo, é por isso que Deus espera que a fé nos faça ser outra pessoa, como o cego que se tornou uma pessoa nova. Hoje, pela segunda leitura (Ef 5, 8-14), as palavras do apóstolo Paulo: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (v. 11); devem ser para nós um convite a sair de nosso estado de cegueira em direção a Luz sem ocaso. Portanto, caros irmãos e irmãs, não importa onde esteve a sua vida (coração) até agora, basta que ela esteja Jesus Cristo, porque Ele sempre nos vê e vem ao nosso encontro para nos curar e nos fazer enxergar a vida com os olhos da fé.

 

Que Deus nos ajude!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


11º Domingo do Tempo Comum – Ano A

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