“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste” (Sl 22, 1).
Queridos irmãos e irmãs, chegamos ao segundo dia do Tríduo Pascal e ao momento áureo de nossa fé, pois estamos diante do mistério de Deus que morreu por amor a nós. Oportunamente, no início desta celebração litúrgica as rubricas nos auxiliam a compreender e nos levam a crer que diante da morte do Senhor toda a Igreja se une e com um gesto reverencial se prosta: “O sacerdote e o diácono, em vestes sagradas de cor vermelha como para a Missa, aproximam-se em silêncio do altar, fazem-lhe reverência e prostram-se ou, se for o caso, ajoelham-se por algum tempo. Todos os outros se ajoelham” (MR, p. 257).
A morte de Deus não foi em vão, mas, para que o mundo recebesse a vida por meio Dele. Por isso, hoje nós somos convidados através desta liturgia a contemplar o grito da morte de Jesus no alto da cruz e provar de sua redenção pelo mundo. E mesmo que a narrativa da Paixão segundo João (18,1-19,42) não traz consigo a forte exclamação do Senhor crucificado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Sl 22, 1), como nos evangelhos de Mt 27, 46 e Mc 15, 34; gostaria de conduzi-los à meditação a partir desse profundo clamor.
Eis aqui o grito da morte de nosso Senhor, que ecoou em toda a face da Terra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Sl 22, 1). Meus irmãos e minhas irmãs, ao celebrarmos a Paixão e Morte de Jesus nós fazemos memória de sua entrega total na cruz. E é por isso que os convido a se colocarem em posição de contemplação, como se realmente tivéssemos a oportunidade de subir ao calvário para contemplar de perto o derramamento do amor de Deus por nós.
Certamente, através do grito Jesus estava se sentindo sozinho e abandonado pelo Pai, pois era preciso que Ele assumisse o seu sacrifício e passasse por aquela hora derradeira. De igual modo, Ele sentiu a rejeição por parte daqueles que veio para salvar, porque pelo profeta escutamos na primeira leitura (Is 52, 13-53, 12): “Ele não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele” (vv. 2b-3).
A aparência de Jesus estava desfigurada e pouco chamava a atenção de quem de longe acompanhava o seu suplício. A morte de cruz era a pior das mortes daquela época. E foi justamente na cruz que o Mestre e Senhor carregou consigo todas as dores, pecados e problemas de todos, por isso ouvimos da profecia de Isaías (53, 4): “A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado!”.
A sua morte não foi em vão, mas foi para a salvação de todos, mesmo que todos não compreendessem e acreditassem na sua redenção. E o pior foi que Ele morreu por causa de nossos pecados: “Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 53, 5).
Caros irmãos e irmãs, aquele mesmo que nos deixou o mandamento do amor e nos pediu para que fizéssemos a comunhão em sua memória na Última Ceia, morreu por aquilo que em nós é mais desprezível. Ele se fez pecado por causa de nossos pecados (2Cor 5, 21). Sendo assim, imaginemos aquele grito de dor ressoar em nossos ouvidos hoje, como se Ele ao questionar o Pai questionasse também a nós, pois O desprezamos.
Como oferta justa e agradável ao Pai, o Filho gritou e em seguida entregou o seu espírito nas mãos daquele que Ele veio fazer a vontade. É por isso que na segunda leitura (Hb 4,14-16; 5,7-9) o autor sagrado nos adverte para que permaneçamos firmes na fé e nos aproximemos do trono da graça, pois nos confirma que: “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus” (Hb 5, 7).
Hoje ao contemplarmos o mistério da morte não podemos cair no erro de permanecermos nela, mas cultivar em nós, desde já, a esperança na Ressurreição, porque a cruz é gloriosa, como outrora afirmou Santo Agostinho. É por isso que a majestade e senhorio de Jesus Cristo se revela na Ressurreição, mas se apoia na cruz, como salientou o cardeal Cantalamessa. E não sendo a cruz um ponto de chegada, mas o verdadeiro ponto de partida, e uma resposta à vida que Ele veio nos doar, com a devida significância que evangelista João colocou nos lábios de Jesus antes mesmo Dele morrer: “Tudo está consumado!” (19, 30).
Povo de Deus, o consumar-se do Cristo é a garantia de tudo aquilo que Ele veio fazer em nosso favor, inclusive a sua oferta de amor por nós na cruz. Com a morte Dele nós todos encontramos a vida, e assim em nós existe algo que nos pesa e/ou nos leva à morte, nos aproximemos do mistério da salvação, e mais uma vez nos deixemos ser tocados pelo amor incondicional e extremado de nosso Senhor por cada um de nós; porque hoje Jesus, o Filho de Deus, anseia por nos salvar!
Que Deus nos salve!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)
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