sábado, 11 de abril de 2026

2º Domingo da Páscoa – Ano A

 “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom; eterna é a sua misericórdia!” (Sl 117).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, neste 2º Domingo da Páscoa celebramos em toda a Igreja, a Festa da Divina Misericórdia. Esta Festa foi instituída pelo Papa São João Paulo II no ano de 2000, com o intuito de revelar ao mundo que o Senhor Ressuscitado apareceu aos seus discípulos para manifestar a sua permanência que se traduz em presença misericordiosa. E esta é a única certeza que encontramos diante de Deus: Ele é misericórdia!

 

Para bem celebrarmos esta Festa vamos recorrer aos textos bíblicos-litúrgicos deste domingo, os quais nos auxiliam a compreender e a meditar a misericórdia de Deus por meio de sua Palavra.

 

Na primeira leitura (At 2, 42-47) nos deparamos com o maior fruto da Ressurreição de Cristo: a unidade. No versículo 44, o autor sagrado de Atos dos Apóstolos nos confirma que: “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum”.

 

Em que consiste em viver unidos e colocar tudo em comum?

 

Muito brevemente: nos evangelhos é perceptível o anseio de Jesus em estar sempre rodeado de pessoas, ou melhor, em comunidade, como, por exemplo, a comunidade dos discípulos e até com as multidões. Prova disto são os inúmeros milagres e feitos do Senhor que sempre se sucederam no meio de todos, para que todos vissem e testemunhassem em primeira mão o seu senhorio. Portanto, a unidade de Jesus com os seus sempre foi motivo para Ele se manifestar quem realmente Ele era, e para deixar claro que onde não há essa virtude, não existe a sua presença.

 

Na segunda leitura (1 Pd 1, 3-9) São Pedro se dirige àqueles que não conheceram em vida Jesus Cristo, mas pelo testemunho dos apóstolos foram capazes de amar e crer no Filho de Deus. Foi em virtude do amor e da fé que Pedro lhes disse: “Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais” (v. 8).

 

Meus irmãos e minhas irmãs, as palavras do versículo acima nos chamam a atenção para a experiência que hoje devemos fazer com o Senhor. Na ocasião da segunda leitura, Pedro voltou-se à sua comunidade, isto é, àqueles que não conheceram e tampouco tiveram um encontro com o Senhor. Porém, ele assegurou que quem visse o Cristo seria capaz de amar, e mais ainda, torna-se-ia capaz de crer verdadeiramente. Mas, como amar e crer em alguém sem tê-Lo visto?


Somente pela fé que se consegue ver para assim de fato amar e crer em totalidade, porque assim é preciso para aqueles que desejam ser salvos, visto que: “Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (vv. 8b-9).

 

No evangelho (Jo 29, 19-31), a comunidade joanina nos introduz em um caminho que para nós hoje se faz conhecido como aquele da misericórdia de Deus. É por isso que os convido a imaginar esse caminho em três principais momentos,  para que possamos adentrar à cena do evangelho e vislumbrarmos Jesus em seus gestos e ações. Estas que nos direcionam às atitudes de sua infinita misericórdia, motivo da Festa que neste 2º Domingo da Páscoa nós celebramos.

 

No primeiro momento Jesus se colocou no meio dos seus discípulos que estavam em comum e unidade (comunidade) e lhes desejou a paz: “A paz esteja convosco!” (v. 19b). Com este desejo meditamos a atitude de Cristo em tomar a iniciativa de estar ali naquele exato momento, e permanecer naquilo que era de seu maior anseio, ou seja, estar na companhia dos seus discípulos.

 

Queridos irmãos e irmãs, a primeira atitude de Jesus nos faz questionar a respeito do seu desejo em estar no meio dos discípulos. O principal motivo Dele aparecer a eles foi para comprovar a sua Ressurreição e ainda para contrapor o medo com que possuíam em relação aos judeus, por isso “as portas estavam fechadas” (v. 19). Sendo assim, com a sua aparição, o Filho de Deus queria mostrar que não cabia espaço ao medo, já que a sua permanência ressuscitada no meio deles seria para sempre.

 

No segundo momento, o Cristo mostrou-lhes as mãos e o lado, o que causou grande alegria aos discípulos por verem o Senhor, e mais uma vez lhes desejou a sua paz soprando sobre eles o Espírito Santo (v. 20-22). Novamente encontramos aqui as atitudes de Jesus em confirmar através de suas mãos, de seu lado aberto, seu desejo de paz e o sopro do Espírito que Ele realmente havia ressuscitado, uma vez que sabia que somente assim os seus discípulos se alegrariam. Todavia, estas suas atitudes ainda não foram suficientes mesmo que o Cristo tenha se colocado no meio deles em comunidade. Seria necessário que alguém como Tomé, que não estava em comunidade quando Jesus lhes apareceu da outra vez, para que obtivesse a experiência direta e íntima com o Senhor, pois esta é a maneira que o Ressuscitado age com todos aqueles que Ele o ama, isto é, possibilitar que todos obtenham uma experiência pessoal de fé com Ele.

 

No terceiro momento do evangelho, especificamente após oito dias em que o Senhor havia se colocado no meio deles, Jesus novamente lhes apareceu, a fim de colocar à prova a fé de Tomé, o didímio, que representa cada um de nós, que muitas vezes não acreditamos o suficiente na Ressurreição e tampouco na permanência do Ressuscitado entre nós. Desse modo, como da outra vez, Jesu se colocou no meio deles e lhes desejou: “A paz esteja convosco!” (v. 26). E depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel” (v. 27).

 

Caros irmãos e irmãs, na terceira vez que o Cristo se pôs no meio dos discípulos e quis que a sua paz estivesse com eles, não foi para fazer de conta. Pelo contrário, foi para demonstrar-lhes que Ele levaria até o fim a sua promessa que iremos celebrar daqui cinquenta dias na sua Ascensão ao céu: “Eis que estarei convosco até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).

 

Hoje somos chamados a crer que diante da permanência de Cristo no meio dos discípulos e em nosso meio, nos faz experimentar a sua misericórdia. Pode ter sido Tomé o último dos discípulos a ver a marca dos pregos e a tocar no lado de Jesus, o que o fez exclamar em voz alta: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). Mas, muitas vezes somos os últimos dos cristãos que como Tomé, somos incrédulos e enfieis, porque vamos às Missas, participamos dos sacramentos, e ainda somos fracos na fé por não crer de verdade. É por isso que hoje o Filho de Deus por meio de sua Ressurreição quer nos alcançar em sua misericórdia, pois Ele disse que bem-aventurados somos nós que mesmo não tendo visto, eu diria ainda que “mesmo ainda não querendo ver”, pela misericórdia chegamos a ver para acreditar e a tocar para confiar, para que no nome de Jesus Cristo sejamos salvos (vv. 29-31).

 

Que Deus tenha misericórdia de nós e do mundo inteiro!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)

 


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