“Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 5, 35).
Caríssimos irmãos e irmãs, estamos adentrando a primeira semana do Tempo da Quaresma, e desde já a mãe Igreja nos convida por meio da liturgia a vislumbrar o que nos espera no final desse itinerário quaresmal, isto é, a vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte por meio de sua paixão, morte e ressurreição. Por isso, imbuídos pelo Espírito da liturgia somos convidados a nos interpelar juntamente com o apóstolo Paulo na carta aos romanos: “Quem nos separará do amor de Cristo? (5, 35). Por acaso seria a morte e o pecado?
É justo e necessário crermos que o amor de Deus por nós se fez criação, e o que fundamenta essa verdade se encontra justamente na primeira leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7), donde nos deparamos com o relato de que Deus formou o homem do barro e soprou em sua narina, a fim de demonstrar a beleza de seu ato criador. Todavia, Adão e Eva, nossos primeiros pais, ao serem tentados pela serpente no Éden, desejosos de conhecer o bem e o mal, e de abrirem os olhos, ou seja, serem como Deus; desobedeceram a ordem do Criador e comeram do fruto da árvore cuja proibição era bem clara: “Não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário, morrereis” (Gn 3, 3).
No evangelho (Mt 4, 1-11), paralelamente à primeira leitura, temos a narrativa das três tentações de Jesus no deserto, que em sentido figurado e interpretativo podem ser subentendidas na perspectiva da “fome”.
Na primeira tentação, satanás tenta Jesus mediante a fome de alimento: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!” (Mt 4, 3). Na segunda, satanás tenta o Filho de Deus pela fome de reconhecimento: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (v. 6). E por fim, na última tentação, satanás tenta Jesus a partir da fome de glória: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (v. 9).
Reparemos, portanto, que os três modos de “fome” (tentação) no paraíso terrestre foram aceitos por Adão e Eva, isto é, eles comeram do mal fruto. Em contrapartida, no deserto, Jesus, o Filho de Deus, não somente abstém a sua fome, mas negou todas tentações com respostas claras e precisas: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”; Não tentarás o Senhor teu Deus!”; “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto” (Mt 4, 4.7.10).
As mesmas tentações de Adão, Eva e de Jesus são as nossas. Somos tentados constantemente, e às vezes não damos conta disto. Temos tudo e ainda reclamamos, nos tornando ingratos diante da providência divina, como por exemplo, a reclamação que às vezes fazemos ante o alimento que temos em nossas mesas; e ainda, por egoísmo, não sabemos sequer repartir o pão com aqueles que não o possuem. De igual modo, em tais momentos buscamos o reconhecimento e achamos que somos conhecedores do bem e do mal, por isso pensamos que não dependemos de Deus para discernir qual caminho seguir ou que decisão tomar. E, erroneamente sempre buscamos a glória, visto que acreditamos que somos deuses, e por isso os outros devem nos "adorar" e nos agradar para que realmente nos sintamos bem.
Não há dúvidas de que as tentações são perceptíveis e bem presentes em nossa vida. Infelizmente vivemos em uma sociedade marcada por uma falta de equilíbrio e por um excesso de carência afetiva. Quantos não matam por dependência afetiva e psicológica, se não por morte fisíca, mas por palavras ofensivas, como salientou a poucos dias o Papa Leão XIV na Missa de quarta-feira de cinzas em Roma. E um outro mal que enfrentamos é o indiferentismo; muitos estão ao nosso lado, porém, estamos ao lado de muito poucos.
Queridos irmãos e irmãs, ao contrário de Adão e Eva, o Filho de Deus respondeu todas as tentações de satanás com argumentos válidos e concientes que comprovam a sua missão salvífica. Ele veio para salvar a todos, pois não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez 33, 11). Além disso, as respostas de Cristo nos leva a refletir e ainda concluir que Adão e Eva tiveram: fome de alimento, por isso comeram do fruto proibido; fome de reconhecimento, uma vez que queriam conhecer o bem e o mal; e fome de glória, porque queriam tornar-se deuses.
Nessa liturgia quaresmal, a “fome” para nós se traduz em maneiras de pecado, que de acordo com o salmista o pecado está sempre à nossa frente (Sl 50, 5), ou melhor, diante de nossos olhos.
Paradoxalmente, conhecemos bem o pecado e mesmo tendo o conhecimento de suas raizes e de suas severas consequências, o cometemos sempre. Mas, por que pecamos? Por que somos tão fracos assim diante do mal que nos tenta?
A segunda leitura (Rm 5, 12-19) nos apresenta que pecamos sempre pela desobediência, uma vez que pela desobediência de um só homem a humanidade inteira foi acometida pelo pecado, mas foi pela obediência de outro homem que a humanidade encontrou a justiça (Rm 5, 19). Diante dessa verdade observamos que pecar, além da desobediência, consiste em não amar a Deus, ou seja, não corresponder ao seu amor criador e salvador. Porém, o pecado também possui uma relação estrutural e social, porque fere a nossa comunhão com o outro. Nesta conjuntura, devemos nos interrogar — Será que mesmo sendo pecadores, poderemos ainda ser audaciosos em nos questionar: “Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 5, 35).
Caríssimos, nada e nem ninguém poderá nos separar do amor de Cristo: “pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 5, 38-39). E, apesar de termos o pecado sempre à frente (Sl 50, 5), devemos possuir a absoluta certeza de que não fomos criados para ele, mas para vivermos na graça de Deus.
O fato da graça ser divina, torna-se ela mesma um dom gratuito e abundante dado a todos nós, a ponto de nos justificar (Rm 5, 15-16), pois é ela que, segundo a nova perspectiva paulina, nos faz participantes da aliança consumada na cruz de Cristo, e ainda nos torna capazes de vencer a morte e o pecado mediante a fé no Filho de Deus.
Que nesse Tempo sacrossanto reconhecemo-nos pecadores, e peçamos dia após dia uma conversão sincera por meio da única certeza que temos, isto é, a misericórdia de Deus, para assim rezarmos com o salmista: “Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa!” (Sl 50, 4).
Que Deus nos ajude!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)
Texto muito bonito e profundamente oportuno para o início da Quaresma. Gostei especialmente da leitura das tentações sob a ótica das “fomes” humanas, porque aproxima o Evangelho da nossa experiência concreta de fragilidade.
ResponderExcluirTambém me chamou atenção a forma como você conduz o paralelo entre Adão e Eva e Cristo no deserto, evidenciando que a resposta de Jesus ilumina justamente os pontos em que nós, tantas vezes, vacilamos.
Que sua caminhada vocacional continue fecunda e que sua escrita siga sendo instrumento de edificação para muitos.
Muitíssimo obrigado pelas palavras, João Leonardo!
ExcluirAbraço!
Excelentes texto e reflexão, que muito nos ajudam no itinerário quaresmal. 💜✨️
ResponderExcluirGratidão pelo seu comentário, Lu!
ExcluirReze por mim. Abraço!