“Tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo!” (Mt 17, 7).
Caríssimos irmãos e irmãs, adentramos a segunda semana do Tempo quaresmal. No último domingo o Espírito da liturgia nos levava a meditar acerca dos “mistérios” do pecado, os quais podem ser subentendidos na perspectiva das “fomes” humanas, como aquela de alimento, reconhecimento e glória. Neste domingo, vislumbrando o sentido último da Quaresma, isto é, a Ressurreição de Cristo, o mesmo Espírito nos convida a olhar para um outro mistério, divino e sublime: a Transfiguração do Senhor. Todavia, para alcançar esse precioso mistério é necessário antes de tudo entrar na dinâmica da fé na Promessa e na Palavra de Deus.
Na primeira leitura (Gn 12, 1-4a), nos deparamos com a narrativa do chamado de Abraão, “nosso pai na fé”. A linguagem bíblica, por meio de sua forma e beleza, nos apresenta que Iahweh se dirigiu a Abraão com um mandato: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (v. 1). O verbo hebraico לֶךְ- לְךָ, cuja transliteração é “Lech-L’echa”, significa de acordo com o hebraico bíblico: “Sai-te!”. Esse verbo (sair) com o pronome (te) implica se locomover do estado atual para à finalidade na qual se é chamado e se tem por missão. Mas, o (sair) para Abraão acarretou deixar tudo, como terra, família e casa, como nos apresenta o texto bíblico.
Abraão, sendo caldeu, vivia sob o regime do Código de Hamurabi. Este, por meio de suas leis, estabelecia que, se alguém deixasse sua terra por no mínimo três anos, seria considerado “sem terra” ou, melhor dizendo, um “sem pátria”; condição à qual Abraão foi submetido ao ser chamado por Deus para deixar sua própria terra. Mas, o que isso tem a nos explicar?
Se compreendermos o contexto dessa leitura bíblica, observaremos que na linguagem do Antigo Testamento, deixar terra, casa e família consistia em perder tudo, como, por exemplo, as suas mais profundas raízes e vínculos. E foi justamente confiando na promessa de Deus que Abraão saiu de sua terra em direção à nova terra prometida, a um numeroso povo, e acima de tudo, à bênção de Deus: “Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção” (Gn 12, 2).
Queridos irmãos e irmãs, com o relato da primeira leitura aprendemos que sem a confiança na promessa de Deus não somos capazes de sair de nossa “terra” traduzida muitas vezes em nossa condição atual ou zona de conforto para irmos em direção à nova “terra” que Ele quer nos confiar. A ordem de Deus para que estejamos sempre em movimento de “saída” para uma “nova terra” é o mesmo convite de conversão que escutamos a cada domingo quaresmal. Diante disso, algumas perguntas devem nos levar ao questionamento: Qual mudança interior Deus espera de mim nesse Tempo quaresmal? Quais têm sido as minhas atitudes e o meu testemunho de cristão diante de tais realidades ao meu redor?
Em consonância à primeira leitura, no evangelho (Mt 17, 1-9) as ações de Jesus nos deixam claro a sua mensagem de conversão: Jesus tomou consigo os discípulos Pedro, Tiago e João, e os levou para o alto da montanha e diante deles se transfigurou (vv. 1-2). Os verbos utilizados por Mateus reforçam que o objetivo do Filho de Deus era demonstrar a partir de sua figura de Mestre, como aquele que ensina e instrui, que o caminho para estar junto de Deus é a transfiguração; não aquela momentânea realizada por Jesus ao lado de Moisés e Elias no Tabor, esta transfiguração foi apenas um prelúdio daquela “mudança de forma” definitiva que o Cristo haveria de passar, isto é, da morte para a vida.
As figuras de Moisés e Elias significam para nós o cumprimento da promessa de Deus sinalizada nesses dois personagens. De um lado Moisés representa a Lei, e de outro Elias que constata o profetismo; ambos evidenciam que Jesus, o Filho de Deus, é o Messias esperado, aquele que veio para que as Escrituras fossem levadas ao seu cumprimento. Apesar desses importantes sinais, o maior detalhe se volta ainda para a voz que do meio da nuvem surge dizendo: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (Mt 12, 5).
Assim como da voz se comprovou a filiação de Cristo; de igual modo, dela se pôde escutar o forte apelo: “Escutai-o!”. Somente quem escuta é capaz de viver a Promessa de Deus. Ao contrário, quem não escuta se fecha e não se locomove! E aqui está o paralelismo entre a primeira leitura e o evangelho.
Indo adiante, no versículo 7 do evangelho, ao contrário do apelo da voz para escutar, observamos a palavra de ordem provinda do gesto “sacramental” de Jesus: “Tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo!” (Mt 17, 7). O emprego do verbo grego ἐγέρθητε (levantar) acompanhado do toque do Cristo possui a finalidade de convocar alguém a sair de seu estado de morte para a vida. Igualmente, recebe a mesma conotação do verbo (sair) ordenado por Deus a Abraão, uma vez que indica locomoção e mudança; como se Deus recobrisse a consciência de Abraão para descobrir e assumir decididamente o seu chamado, e ainda como se Jesus, no evangelho, devolvesse a consciência aos seus discípulos, os quais conforme nos é narrado no texto bíblico, se contentaram com aquilo que viram e por isso desejaram permanecer ali. Mas é certo que tanto Ur dos caldeus, quanto o monte Tabor são apenas locais de transfiguração.
Do mesmo modo que foi preciso que Jesus se transfigurasse para revelar o ápice e a finalidade de sua missão, ou seja, a sua Ressurreição; assim Abraão necessitou mudar de mentalidade em Ur ao receber a ordem de Deus para sair de seu contexto vital em direção a um novo. Ambas as passagens implicam revelação e mudança de perspectiva. Os discípulos não compreenderam, como Abraão também não entendeu de imediato. Porém, foi a fé de ambos que os levou a crer na Promessa e na Palavra.
Caríssimos, na liturgia deste domingo também nós somos levados pelo Filho de Deus ao alto da montanha a fim de vê-Lo μετεμορφώθη, ser (transfigurado). A sua “mudança de forma” ultrapassa a concepção de um gesto de “mágica”; vai muito além de nossas realidades humanas, visto que o sentido de seu gesto de transfigurar-se é apelo para os seus mudarem de vida, de conduta e até mesmo de mentalidade. É certo que quem transfigura é Jesus, mesmo assim Ele nos convoca a também transfigurarmos, pois ao contrário, nunca haverá mudança interior em nós. E, se Quaresma não servir para mudar o nosso modo de viver, provocando em nós o propósito de sermos melhores, nos responsabilizando pela vida e o bem-estar do próximo, convencidos de que a fé tem a sua dimensão social; vamos passar por mais um Tempo quaresmal e ainda continuarmos imaturos na fé e indiferentes às inúmeras realidades.
Na segunda leitura (2Tm 1, 8b-10) nos defrontamos com o convite de Paulo à Timoteo: “Sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (v. 8b). Diante desse convite paulino podemos nos perguntar: Em que consiste sofrer pelo evangelho? E por que sofrer por ele?
Meus queridos irmãos e irmãs, o evangelho de Cristo tem um preço e um poder nos faz ser fortes. O chamado para que se viva por causa dele requer muito esforço e até sacrifício de vida. É no evangelho que consiste a Promessa de Cristo para os seus, porque é por meio dele que se recebe a vida e a imortalidade (2Tm 1, 10). Se o Mestre nos toma consigo e nos leva ao monte é para nos conduzir a crer em sua Palavra e Ressurreição. O sentido da Quaresma é se não este, nos levar a ressuscitar com Jesus Cristo. Se fiéis formos aos apelos e às ordens de Deus, aos poucos vamos compreendendo aquilo que o salmista nos convida a rezar: “Pois reta é a palavra do Senhor, e tudo o que ele faz merece fé” (Sl 32, 4), pois Ele sempre cumpre a sua parte ao nos revelar a Promessa e a sua Palavra. Cabe a nós acolhê-las ou não através dos gestos de uma profunda e sincera conversão.
Que Deus nos ajude!
(Luís Guilherme Santos da Rocha)