sábado, 14 de março de 2026

4º Domingo do Tempo da Quaresma – Ano A

 “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, somos introduzidos na quarta semana do tempo quaresmal a partir das verdades que o salmista nos oferece em seu canto: “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10). Se no domingo passado meditamos acerca do mistério da sede, do qual nos brota a certeza de que Jesus Cristo é a fonte da Água viva, hoje somos convocados a um outro mistério: a luz! Pois é por intermédio dessa luz que contemplamos a verdadeira Luz.


A primeira leitura deste domingo (1Sm 16, 1b.6-7.10-13a) nos situa sobre o relato da escolha e eleição de Davi, o qual fora ungido pelo profeta Samuel para ser o rei de Israel. No entanto, diante deste fato encontramos aquilo que podemos chamar de “contradição dialética”, pois conforme o texto bíblico, Samuel foi enviado por Iahweh à casa de Jessé na região de Belém para ungir com óleo, ou seja, eleger um filho daquela casa. No primeiro momento o profeta viu Eliab, o filho mais velho de Jessé, e deduziu facilmente que seria ele, uma vez que era o mais velho e provavelmente o mais forte. A resposta de Deus foi o fator crucial dessa eleição, pois assim foi dito: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei” (v. 7). E continuando Ele disse: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 7b).


As respostas de Deus ao profeta Samuel nos conduzem a alguns questionamentos cabíveis, como por exemplo:  – O que consiste em olhar o coração? Deus elege alguém com um coração diferente das demais pessoas?


Queridos irmãos e irmãs, fazendo um adendo a respeito do tempo litúrgico em que vivemos, é preciso que nós possuamos a devida consciência de que o período quaresmal tem por finalidade conduzir todos os fiéis à Festa da Luz, ou melhor, à Páscoa do Senhor. É por esse motivo que a Igreja na Quaresma, desde os séculos IV e V, prepara os catecúmenos para o sacramento do batismo através de catequeses e escrutínios, para que seguindo o itinerário intenso de purificação e iluminação, os catecúmenos cheguem às águas do batismo na noite santa da Vigília Pascal. Além disso, é certo que a pedagogia deste tempo sacrossanto nos prepara para participar de maneira ativa e frutuosamente dos mistérios do Senhor. Contudo, para bem participarmos é necessário nutrir em nós através desta liturgia dominical uma alegria esperançosa, sinalizada pela cor litúrgica rosa, a qual nos garante que estamos próximos da Páscoa do Senhor.


Dando continuidade ao relato bíblico da primeira leitura devemos observar que nele se condensa muitos elementos simbólicos que podem nos situar diante de Deus e da eleição que Ele nos faz. É por isso que nesta leitura são apresentados os sete primeiros filhos de Jessé, mas faltava ainda o oitavo filho. Este passava boa parte de seu tempo nos campos de Éfrata cuidando de suas ovelhas, e não tinha a mesma aparência e estatura de seus sete irmãos (1Sm 16, 7). Mas, existia um fator que o diferenciava e tornava-o escolhido, isto é, o seu coração, que no hebraico לַלֵּבָ (coração), cuja forma transliterada (leb), significa o “lugar” mais íntimo e mais profundo que somente Deus conhece.


O coração de Davi era um coração de pastor. Aqui está o ponto alto dessa passagem bíblica, visto que jamais alguém escolhe ser pastor, mas antes é o chamado ao pastoreio que escolhe alguém dentre os homens para exercer esse belo ofício. Por isso, caros irmãos e irmãs, Deus olhou para o coração de Davi e o elegeu dentre os demais, não porque ele seria melhor ou superior, mas o essencial para a missão que futuramente lhe seria confiada, isto é, de ser rei-pastor. Em outras palavras, Deus ungiu a Davi para ser rei, porque seria por intermédio do seu reinado que ele seria salvo; mesmo que ele viesse a pecar como fez tantas vezes.


O evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o encontro decisivo e marcante de Jesus com um cego de nascença. O texto nos afirma que: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (v. 1). Neste primeiro versículo nos deparamos com a primeira e principal ação do Senhor, que foi a sua visão. O emprego do verbo grego εἶδεν (viu) remete à ideia de que Jesus ao passar por aquele homem, viu não somente a sua condição física, porém, antes reconheceu a sua necessidade de ser curado e se tornar outra pessoa. Aqui, em sentido paralelo à primeira leitura, podemos concluir que a grande maioria das pessoas enxergariam a condição enferma daquele homem cego, por isso parariam na aparência e na estatura (1Sm 16, 7). No entanto, Deus enxerga sempre a necessidade que brota do coração.


A pergunta dos discípulos de Jesus foi crucial: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9, 2). Os discípulos, pela lei, supuseram que a causa da cegueira daquele homem viria do pecado dos pais ou dele mesmo. Porém, a resposta de Jesus a eles deixou claro que não foram os pais que pecaram e tampouco ele próprio, mas para que a sua cegueira servisse para manifestar as obras de Deus através dele (v. 3).

Ante a afirmação do Mestre poderíamos perguntar ao evangelista: – Se ninguém pecou para que o homem cego de nascença obtivesse a cegueira, como é que poderíamos conceber a ideia de que o seu estado de cegueira seria para manifestar as obras de Deus? Ou ainda: – Deus se alegra com a enfermidade?


A resposta para nós é óbvia e se encontra no próprio relato bíblico. A cegueira foi o meio para que Jesus notasse aquele homem: “Jesus viu” (v. 1). E detalhe: a cegueira não compunha o ser, e sim o estado de vida do homem cego. Por esse motivo, o Senhor foi ao encontro da pessoa do cego de nascença e para curar a sua enfermidade, porque o que mais importa para Deus é a vida em sua integralidade.


Queridos irmãos e irmãs, estamos a todo momento cegos e necessitados de luz, por isso que o Senhor sempre vem ao encontro de nossa pessoa e de nosso estado de alma necessitada de cura e de cuidado. Devemos refletir qual é a nossa “enfermidade”, muitas vezes traduzida em pecados, escolhas erradas e falsas compreensões de nós mesmos e das realidades em que vivemos.


Indo adiante, Jesus alega ser a luz do mundo (Jo 9, 5), e seguindo o texto Ele agiu do seguinte modo: “Cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’ (que quer dizer: Enviado)” (vv. 6-7). Este gesto “sacramental” do Senhor comprova a compaixão com que Ele sentiu ao ver a condição e a reconhecer a necessidade daquele pobre homem em querer enxergar.


Caros irmãos e irmãs, imaginemos o estado de escuridão e trevas que aquele homem cego vivia. Até aquele momento presente ele jamais tinha visto a luz. É por isso que ele atendeu prontamente a ordem de Jesus em lavar-se na piscina de Silóe. O ato de lavar-se “chancelou” a cura daquele homem, isto não significa que as ações do Cristo precisam de “chancela”; pelo contrário, elas exigem de quem recebe a cura, a participação ativa no milagre. Desse modo, a ação do homem cego em lavar-se na piscina representa o seu consentimento; como se ele cresse na cura que Jesus havia realizado. Entretanto, isso não bastava, porque algo ainda lhe faltava, ou seja, crer não somente na obra (cura) do Cristo em sua vida, mas aderir-se totalmente a Ele, por meio da profissão de fé que trataremos a seguir.


Conforme o texto do evangelho, o homem, que era cego, ao ser identificado pelas pessoas foi visto diferente do que era antes. Certamente o toque “sacramental” do Filho do Homem fez com que ele, em sentido paralelo à primeira leitura, mudasse de aparência e de estatura (1Sm 16, 7), visto que as pessoas que o conheciam não foram capazes de reconhecê-lo depois do milagre. Outros ainda, como os fariseus não foram capazes de notar a transformação daquele homem, porque estavam fechados à graça e atrelados tão somente às leis e ao sábado (Jo 9, 13-17). Por isso que eles interrogaram não somente o homem que era cego, mas inclusive a sua família (vv. 19-23), pois não acreditavam nos feitos, e tampouco na pessoa de Jesus Cristo.


Mais adiante vemos que a resposta dos fariseus ao homem que passou a enxergar foi a expulsão dele da comunidade judaica. Todavia, algo novo aconteceu na vida dele. O Cristo lhe apareceu novamente e o interrogou: “Acreditas no Filho do Homem?” (Jo 9, 35). Até aquele momento o curado acreditava na cura que ele havia recebido, mas ainda não acreditava em Jesus, o Cristo. Por isso ele perguntou: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” (v. 36). E Jesus lhe disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo” (v. 37). Naquele instante a resposta e atitude de fé daquele homem fizeram com que ele obtivesse a cura por inteira: “‘Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus” (v. 38).


Desta liturgia devemos tirar uma lição para a vida: nós “estamos” sempre cegos. Por isso que um dia fomos levados à pia batismal, ao útero da Igreja, para recebermos o sacramento do batismo e enxergarmos com os olhos da fé a luz que é Cristo. Mesmo assim poderíamos nos perguntar: – Se pelo batismo recebemos a Luz, por que em nós ainda moram as trevas que nos faz sermos cegos?


Eis aqui, caros irmãos e irmãs, um notável paradoxo. Este não deve nos espantar, ao contrário, deve nos fazer compreender que ainda não estamos prontos. Particularmente, gosto de pensar que a visão de Deus para nós é mirabolante, pois Ele nos enxerga “lá na frente”, no momento exato em que estaremos prontos para o céu. As fortes palavras de Santo Irineu de Lião, Padre e Doutor da Igreja nos apontam para essa mesma ideia de visão, pois desse modo ele afirmou: “Gloria Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei”, isto é, a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.


Deus é aquele que sempre nos vê de perto, pois para Ele não existe visão turva ou distanciada. A visão Dele é sempre cuidadora, pois assim nos canta e declara o salmista na liturgia deste domingo: “O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma (Sl 23, 1). E em decorrência a esta verdade, o cardeal Raniero Cantalamessa sublinha algo que pode nos levar a refletir a respeito do tema da “visão”. Para ele, a fé é capaz de nos oferecer uma visão sempre nova da vida. Diante disso eu te pergunto: – Que visão você tem da sua vida? Por acaso, essa visão é clara e verdadeira?


Meus irmãos e minhas irmãs, nós temos um tesouro inviolável dentro de nós, que é a fé. Por isso, precisamos tomar cuidado com o que estamos fazendo com esse tesouro. A exortação de Jesus em outra passagem do evangelho: “Onde está o teu coração, aí está o teu tesouro” (Mt 6, 21); deixa mais evidente a preocupação com que devemos ter com o nosso tesouro, a ponto de nos levar ainda a refletir com outras palavras esse pensamento: Onde está a tua fé, aí está a tua vida!


Certamente, Deus conhecia o coração de Davi, ou em outras palavras, Ele conhecia a vida daquele jovem pastor. De igual modo, o Filho do Homem ao reconhecer a condição daquele homem que era cego de nascença, conhecia a sua vida, a ponto de dar a ele a luz que tanto necessitava: a fé!


É a fé que nos conduz ao mistério que meditamos neste 4º Domingo do Tempo da Quaresma. Sem ela não enxergaremos a luz que é Cristo, é por isso que Deus espera que a fé nos faça ser outra pessoa, como o cego que se tornou uma pessoa nova. Hoje, pela segunda leitura (Ef 5, 8-14), as palavras do apóstolo Paulo: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (v. 11); devem ser para nós um convite a sair de nosso estado de cegueira em direção a Luz sem ocaso. Portanto, caros irmãos e irmãs, não importa onde esteve a sua vida (coração) até agora, basta que ela esteja Jesus Cristo, porque Ele sempre nos vê e vem ao nosso encontro para nos curar e nos fazer enxergar a vida com os olhos da fé.

 

Que Deus nos ajude!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


quinta-feira, 5 de março de 2026

3º Domingo do Tempo da Quaresma – Ano A

 “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4, 10).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, estamos iniciando a terceira semana do tempo quaresmal. Na liturgia do domingo passado meditamos sobre o mistério da Transfiguração, o qual nos interpelou a respeito de nossa fé na Promessa e na Palavra de Deus. Neste domingo o Espírito da liturgia nos conduz a contemplar um outro mistério, humano e divino: a sede! E para meditar este mistério é preciso de antemão nos questionar sobre o dom de Deus. – Afinal, que dom é esse?

Na primeira leitura (Ex 17, 3-7) encontramos o relato da travessia do povo pelo deserto. No início dessa leitura observamos que o povo murmurava contra Moisés pela falta de água através de alguns questionamentos: “Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” (v. 3). Vejamos que essa indagação é um tanto provocativa, pois Iahweh já havia realizado muitos sinais diante deles no deserto, e mesmo assim persistiam na mesmice e no murmúrio. Os capítulos anteriores a essa leitura de Êxodo deixam claro que para aquele povo parecia estar cômodo habitar nas terras do Egito e permanecer sob o julgo do faraó Ramsés II, porque em diversas passagens eles reclamaram por estar caminhando no deserto. Aqui nos deparamos com um povo de “servil dura”, que não compreendia e tampouco desejava permanecer na vontade de Deus. 

O texto bíblico da primeira leitura afirma que Iahweh atendeu o pedido do povo e de Moisés, este que já não sabia mais o que fazer diante de tantos questionamentos. Desse modo, Deus ordenou a Moisés que ferisse a pedra para que dela vertesse água para saciar a sede daquela gente. Diante desse acontecimento, Moisés chamou aquele lugar de Massa e Meriba por causa da insistência do povo e por tentarem a Deus questionando-O, dessa vez, com as seguintes palavras: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7).

Estimados irmãos e irmãs, a chave de leitura para a liturgia deste domingo se encontra a partir dessa pergunta: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). Sem sombras de dúvidas, é com base nessa interrogação que chegaremos a compreender qual é a resposta que Deus espera de nós por meio dessa Quaresma; mas é claro, se antes formos capazes de fazer ressoar em nós mesmos as fortes palavras do salmista: “Se hoje escutardes a sua voz, não endureçais o coração” (Sl 94, 8). 

Consonante à primeira leitura, o evangelho deste domingo (Jo 4, 5-42) nos convida à cena cativante do diálogo de Jesus, o Messias esperado, com a mulher samaritana. Por se tratar do evangelho de João, conhecido popularmente entre biblistas e não biblistas como o “evangelho dos sinais”; de início a narrativa deste evangelho dominical nos direciona aos diversos acenos que ao longo do diálogo vão sendo identificados e nos levam à reflexão profunda. Todavia, gostaria de os conclamar a adentrar na cena do evangelho, para perceber as ações, e inclusive, se possível for, a se colocar no lugar daquela mulher, porque é a vida dela e de seu povo que mais importava para Jesus naquele exato momento. Ademais, gostaria ainda de me ater em algumas falas da tratativa da samaritana com o Mestre que cativava e advertia, a começar pela necessidade com que Ele teve. 

Caros irmãos e irmãs, o texto bíblico-litúrgico deste evangelho não traz o versículo 4, porém, gostaria de salientar que o evangelista deixa claro através desse versículo que: “Era preciso passar pela Samaria”. O contexto dessa passagem aponta que Jesus estava na Judeia retornando à Galileia, mas dentre os caminhos que Ele poderia escolher para passar, optou por transitar justamente pela Samaria. Poderíamos diante desse fato nos perguntar: Por que passar pela Samaria? Seria este um lugar estratégico ou até mesmo um atalho? 

As terminologias gregas com as quais os evangelhos foram redigidos nos auxiliam na melhor compreensão e assimilação da mensagem do texto bíblico. Assim sendo, podemos concluir que o emprego do verbo grego Ἔδει, de cuja tradução “era preciso ou convinha”, nos ajuda  a crer que Jesus possivelmente tinha uma missão salvífica inadiável naquela região, ou ainda, um encontro marcado com alguém muito importante. Em outras palavras, convinha que o Cristo passasse por aquele povo, e ainda mais, que Ele se fizesse presença no meio deles por dois principais motivos. O primeiro, em paralelo ao texto da primeira leitura, comprova a indagação do povo no deserto: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). E o segundo veremos a seguir na narrativa introdutória do diálogo de Jesus com a samaritana. 

Meus irmãos e irmãs, para contextualizá-los melhor explico-lhes que devido aos conflitos anteriores entre judeus e samaritanos, jamais um judeu poderia passar pela Samaria. Essa região era considerada impura por causa da influência dos povos assírios e pelo culto a outros deuses. Os samaritanos, por sua vez, observavam apenas as Leis (Torá) e não acreditavam no profetismo de alguns profetas, como aqueles do Templo. Esses semipagãos, como salienta o teólogo Pagola, adoravam a Deus no monte Garizim e não em Jerusalém, como os judeus. Sem dúvidas, essas perspectivas nos leva a entender que a rivalidade entre ambos os grupos era antiga e com alguns motivos defendidos por parte de cada um deles.

Indo adiante, conforme nos apresenta o texto, Jesus sendo judeu e estando cansado sentou-se no poço de Jacó por volta do meio-dia, e logo em seguida chegou a mulher samaritana para tirar água daquele poço (Jo 4, 5). Mesmo que o diálogo entre os dois não tenha se iniciado ainda neste versículo, por meio dele nos é manifestado um sinal introdutório, isto é, a ação do Messias em se colocar no meio daquele povo samaritano representado pela própria mulher. Aqui, em sentido paralelo à primeira leitura, mais uma vez volta à nossa memória a pergunta do povo no deserto: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17, 7). Sim, caros irmãos e irmãs, o Senhor desejou estar no meio dos samaritanos para demonstrar que a salvação viera também para eles.

A mensagem para nós deve ser muito óbvia: Jesus veio para todos; veio para romper as barreiras entre judeus e pagãos, por isso de modo muito consciente e humilde Ele foi capaz de suplicar: “Dá-me de beber” (Jo 4, 7). Jesus estava com sede. – Mas, que sede é esta? Sede de alguém? 

Santo Agostinho em seus sermões sobre essa página do evangelho dizia que o Cristo sentiu sede da fé daquela mulher, pois Ele queria muito que aquele encontro fizesse com que ela acreditasse verdadeiramente Nele e em suas palavras. E foi isto o que aconteceu!

O teólogo espanhol Antonio Pagola sublinha que Jesus, o sedento, se sentiu à vontade diante daquela mulher, por isso se viu na oportunidade de pedir de beber a ela. É certo que a samaritana reconheceu o risco que Jesus havia cometido, pois mesmo Ele sendo judeu pedia de beber a uma mulher, que por sinal era da Samaria (v. 9). Ainda no início desse importante diálogo a samaritana retruca, porém, aos poucos vai sendo convidada a também se sentir à vontade diante Dele, como alguém que progressivamente vai abrindo o coração e se deixando ser consolado (a). 

Mais adiante vemos a resposta emblemática de Jesus à samaritana: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (v. 10). A provocação enfática de Cristo: “Se conhecesses o dom de Deus”, do grego εἰ ᾔδεις τὴν δωρεὰν τοῦ θεοῦ carrega consigo um emaranhado simbólico, dentre os quais podemos destacar a necessidade do conhecimento profundo do dom de Deus expresso pelo verbo grego ᾔδεις (conhecesses) e τὴν δωρεὰν (o dom/presente de Deus). A junção de ambos os termos manifesta a intenção de que o Messias por meio da condição εἰ (Se), se autorrevela a ela quem Ele realmente é: o Messias esperado, que veio para saciar a fome de todos! Essa condicional (Se) conduz à expressão: “Dá-me de beber”, do grego δός μοι πεῖν, uma vez que através dela Jesus realiza o seu pedido de maneira muito humilde; como alguém que está bastante cansado e com muita sede.

Meus irmãos e minhas irmãs, as ações do Cristo comprovam que Ele realmente estava cansado e sedento. O seu cansaço e a sua sede não eram somente físicos. Podemos intuir que assim como Iahweh estava “cansado” daquele povo, cujo coração endurecido e fechado, os impossibilitava de enxergar as obras de Deus sendo realizadas em suas vidas. No evangelho, Jesus no primeiro momento também se mostra como alguém “cansado” da viagem, mas também “cansado” de tocar os corações de muitos, e poucos mudarem realmente de vida. Diante dessas afirmações, desejo profundamente que todos compreendam o termo “cansado”, no sentido figurado, utilizado nestas linhas.

Assim como o “cansaço”, Iahweh estava sedento do seu povo que caminhava pelo deserto. Com certeza foi essa sede que O levou a permanecer com eles no deserto, uma vez que a sua presença era constante. Do mesmo modo, foi a sede de Jesus que o fez entrar em intimidade com aquela mulher. Ele não precisaria pedir de beber à ela, pois Ele mesmo é a Água viva, mesmo assim se abaixou na condição de mostrar que estava sedento dela, sede de ganhar o seu coração; e ainda representa a sede de todo aquele povo semipagão pelo verdadeiro Deus. Alem disso, o Messias tinha sede de que eles tivessem sede Dele, pois Deus sempre tem sede de nós! 

Caros irmãos e irmãs, aqui está a resposta que Deus quer de nós através desta liturgia oportuna. Ele deseja que nós tenhamos sede Dele. Aquela sede insaciável que nos faz ir até Ele para suplicar como Ele: “Dá-me de beber” (Jo 4, 7). 

O diálogo entre os dois continua até que a mulher pede ao Cristo que lhe conceda a Água viva, a ponto de reconhecê-Lo como um profeta. Ele afirma que os samaritanos adoram o que eles não conhecem, e ainda que os verdadeiros adoradores não adorarão ao Pai no monte Garizim e nem em Jerusalém, mas em espírito e verdade (vv. 15-24). 

Caríssimos, esses sinais apontam para o messianismo de Jesus. Os samaritanos esperavam o Messias, aquele que viria para restaurar a dignidade daquele povo, por isso para eles, o Restaurador seria um novo Moisés, que restauraria o culto a Deus no monte deles. A chamada de atenção de Jesus através destas palavras: “Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4, 21); significa, segundo São João Crisóstomo, que o Messias advertia aquela mulher afirmando que não seria mais no monte Garizim e tampouco em Jerusalém que Deus deveria ser adorado, mas Nele próprio, pois Ele nos revela o rosto do Pai, a fim de que adoremos ao Pai somente em espírito e verdade (v. 23). 

A liturgia deste domingo é muito clara, por isso ela mesma nos convida a crer que o Cristo teve sede e pressa para salvar; e ainda de se mostrar como o único e verdadeiro Messias, capaz de saciar a sua própria sede amando, porque o dom de Deus é amar. Aqui nos deparamos com a finalidade do tempo quaresmal, o qual por meio de uma pedagogia própria nos conduz ao mistério da salvação. É o que faz São Paulo na segunda leitura (Rm 5, 1-2.5-8) a nos escrever que a salvação veio por Jesus Cristo, e somente pela fé Nele que seremos justificados; e a prova disto é o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (v. 5). 

O mistério da sede que nesta liturgia quaresmal se reveste em divindade e em humanidade comprova que a sede do povo do deserto é do povo da Samaria era a mesma que Deus tinha deles. Por isso que diante daquela mulher, o Messias se rebaixou ao extremo, descendo até o mais profundo daquele poço, ou seja, o coração daquela mulher, para deixar claro que a sede que ela (samaritanos) possuía era a mesma que a Sua: sede um pelo outro!

No evangelho vemos ainda que Jesus se autoproclama o Messias verdadeiro ao afirmar: “Sou eu, que estou falando contigo” (Jo 4, 26). Imaginemos, irmãos e irmãs, essas palavras ressoando em nossos ouvidos por meio desta liturgia; como se o mesmo Cristo dissesse também a nós e nos provocasse a tomarmos a mesma atitude ousada que tomou aquela samaritana, isto é, deixar o cântaro e ir em direção à cidade (v. 28). Pois a respeito desse cântaro, Orígenes afirma que para a samaritana significou deixar tudo: o pecado, a vida velha e o que a impedia de se colocar por inteira na presença do seu Messias. Diante disto, algumas perguntas devem nos levar à reflexão: – O que tem roubado a nossa sede? O que tem feito que a nossa sede seja por outras coisas ao invés da sede de Deus?

Talvez o que possa roubar a nossa sede seja as nossas más ambições, nossos falsos ídolos, pecados e problemas não resolvidos. Por isso que o movimento da samaritana de ir à cidade representa para nós que a mensagem salvadora de Deus é tão forte e atual, a ponto dela não se sentir condenada por aquilo que fez e por causa de suas falsas crenças; mas ao contrário, ela se sente saciada e no direito de testemunhar a outros sobre o verdadeiro Messias.

Meus irmãos e minhas irmãs, o encontro com Jesus Cristo no poço de nossa história deve ser sempre real e presente, a fim de que possamos dialogar com o Messias, que nos fala ao coração sempre de maneira acolhedora e cativante. Por esse motivo, hoje Ele nos convida a ir ao nosso poço, para simplesmente pedirmos a Ele de beber, porque no fim de tudo é tão somente Ele quem nos saciará!

 

Que Deus nos ajude a ter sede Dele e a cooperar para que outros também possam beber desta mesma fonte de Água viva!

 

(Luís Guilherme Santos da Rocha)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

2º Domingo do Tempo da Quaresma - Ano A

 “Tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo!” (Mt 17, 7).

 

Caríssimos irmãos e irmãs, adentramos a segunda semana do Tempo quaresmal. No último domingo o Espírito da liturgia nos levava a meditar acerca dos “mistérios” do pecado, os quais podem ser subentendidos na perspectiva das “fomes” humanas, como aquela de alimento, reconhecimento e glória. Neste domingo, vislumbrando o sentido último da Quaresma, isto é, a Ressurreição de Cristo, o mesmo Espírito nos convida a olhar para um outro mistério, divino e sublime: a Transfiguração do Senhor. Todavia, para alcançar esse precioso mistério é necessário antes de tudo entrar na dinâmica da fé na Promessa e na Palavra de Deus.


Na primeira leitura (Gn 12, 1-4a), nos deparamos com a narrativa do chamado de Abraão, “nosso pai na fé”. A linguagem bíblica, por meio de sua forma e beleza, nos apresenta que Iahweh se dirigiu a Abraão com um mandato: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (v. 1). O verbo hebraico לֶךְ- לְךָ, cuja transliteração é “Lech-L’echa”, significa de acordo com o hebraico bíblico: “Sai-te!”. Esse verbo (sair) com o pronome (te) implica se locomover do estado atual para à finalidade na qual se é chamado e se tem por missão. Mas, o (sair) para Abraão acarretou deixar tudo, como terra, família e casa, como nos apresenta o texto bíblico.


Abraão, sendo caldeu, vivia sob o regime do Código de Hamurabi. Este, por meio de suas leis, estabelecia que, se alguém deixasse sua terra por no mínimo três anos, seria considerado “sem terra” ou, melhor dizendo, um “sem pátria”; condição à qual Abraão foi submetido ao ser chamado por Deus para deixar sua própria terra. Mas, o que isso tem a nos explicar?


Se compreendermos o contexto dessa leitura bíblica, observaremos que na linguagem do Antigo Testamento, deixar terra, casa e família consistia em perder tudo, como, por exemplo, as suas mais profundas raízes e vínculos. E foi justamente confiando na promessa de Deus que Abraão saiu de sua terra em direção à nova terra prometida, a um numeroso povo, e acima de tudo, à bênção de Deus: “Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção” (Gn 12, 2).


Queridos irmãos e irmãs, com o relato da primeira leitura aprendemos que sem a confiança na promessa de Deus não somos capazes de sair de nossa “terra” traduzida muitas vezes em nossa condição atual ou zona de conforto para irmos em direção à nova “terra” que Ele quer nos confiar. A ordem de Deus para que estejamos sempre em movimento de “saída” para uma “nova terra” é o mesmo convite de conversão que escutamos a cada domingo quaresmal. Diante disso, algumas perguntas devem nos levar ao questionamento: Qual mudança interior Deus espera de mim nesse Tempo quaresmal? Quais têm sido as minhas atitudes e o meu testemunho de cristão diante de tais realidades ao meu redor?

 

Em consonância à primeira leitura, no evangelho (Mt 17, 1-9) as ações de Jesus nos deixam claro a sua mensagem de conversão: Jesus tomou consigo os discípulos Pedro, Tiago e João, e os levou para o alto da montanha e diante deles se transfigurou (vv. 1-2). Os verbos utilizados por Mateus reforçam que o objetivo do Filho de Deus era demonstrar a partir de sua figura de Mestre, como aquele que ensina e instrui, que o caminho para estar junto de Deus é a transfiguração; não aquela momentânea realizada por Jesus ao lado de Moisés e Elias no Tabor, esta transfiguração foi apenas um prelúdio daquela “mudança de forma” definitiva que o Cristo haveria de passar, isto é, da morte para a vida.


As figuras de Moisés e Elias significam para nós o cumprimento da promessa de Deus sinalizada nesses dois personagens. De um lado Moisés representa a Lei, e de outro Elias que constata o profetismo; ambos evidenciam que Jesus, o Filho de Deus, é o Messias esperado, aquele que veio para que as Escrituras fossem levadas ao seu cumprimento. Apesar desses importantes sinais, o maior detalhe se volta ainda para a voz que do meio da nuvem surge dizendo: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (Mt 12, 5).


Assim como da voz se comprovou a filiação de Cristo; de igual modo, dela se pôde escutar o forte apelo: “Escutai-o!”. Somente quem escuta é capaz de viver a Promessa de Deus. Ao contrário, quem não escuta se fecha e não se locomove! E aqui está o paralelismo entre a primeira leitura e o evangelho.


Indo adiante, no versículo 7 do evangelho, ao contrário do apelo da voz para escutar, observamos a palavra de ordem provinda do gesto “sacramental” de Jesus: “Tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo!” (Mt 17, 7). O emprego do verbo grego ἐγέρθητε (levantar) acompanhado do toque do Cristo possui a finalidade de convocar alguém a sair de seu estado de morte para a vida. Igualmente, recebe a mesma conotação do verbo (sair) ordenado por Deus a Abraão, uma vez que indica locomoção e mudança; como se Deus recobrisse a consciência de Abraão para descobrir e assumir decididamente o seu chamado, e ainda como se Jesus, no evangelho, devolvesse a consciência aos seus discípulos, os quais conforme nos é narrado no texto bíblico, se contentaram com aquilo que viram e por isso desejaram permanecer ali. Mas é certo que tanto Ur dos caldeus, quanto o monte Tabor são apenas locais de transfiguração.


Do mesmo modo que foi preciso que Jesus se transfigurasse para revelar o ápice e a finalidade de sua missão, ou seja, a sua Ressurreição; assim Abraão necessitou mudar de mentalidade em Ur ao receber a ordem de Deus para sair de seu contexto vital em direção a um novo. Ambas as passagens implicam revelação e mudança de perspectiva. Os discípulos não compreenderam, como Abraão também não entendeu de imediato. Porém, foi a fé de ambos que os levou a crer na Promessa e na Palavra.


Caríssimos, na liturgia deste domingo também nós somos levados pelo Filho de Deus ao alto da montanha a fim de vê-Lo μετεμορφώθη, ser (transfigurado). A sua “mudança de forma” ultrapassa a concepção de um gesto de “mágica”; vai muito além de nossas realidades humanas, visto que o sentido de seu gesto de transfigurar-se é apelo para os seus mudarem de vida, de conduta e até mesmo de mentalidade. É certo que quem transfigura é Jesus, mesmo assim Ele nos convoca a também transfigurarmos, pois ao contrário, nunca haverá mudança interior em nós. E, se Quaresma não servir para mudar o nosso modo de viver, provocando em nós o propósito de sermos melhores, nos responsabilizando pela vida e o bem-estar do próximo, convencidos de que a fé tem a sua dimensão social; vamos passar por mais um Tempo quaresmal e ainda continuarmos imaturos na fé e indiferentes às inúmeras realidades.

 

Na segunda leitura (2Tm 1, 8b-10) nos defrontamos com o convite de Paulo à Timoteo: “Sofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (v. 8b). Diante desse convite paulino podemos nos perguntar: Em que consiste sofrer pelo evangelho? E por que sofrer por ele?


Meus queridos irmãos e irmãs, o evangelho de Cristo tem um preço e um poder nos faz ser fortes. O chamado para que se viva por causa dele requer muito esforço e até sacrifício de vida. É no evangelho que consiste a Promessa de Cristo para os seus, porque é por meio dele que se recebe a vida e a imortalidade (2Tm 1, 10). Se o Mestre nos toma consigo e nos leva ao monte é para nos conduzir a crer em sua Palavra e Ressurreição. O sentido da Quaresma é se não este, nos levar a ressuscitar com Jesus Cristo. Se fiéis formos aos apelos e às ordens de Deus, aos poucos vamos compreendendo aquilo que o salmista nos convida a rezar: “Pois reta é a palavra do Senhor, e tudo o que ele faz merece fé” (Sl 32, 4), pois Ele sempre cumpre a sua parte ao nos revelar a Promessa e a sua Palavra. Cabe a nós acolhê-las ou não através dos gestos de uma profunda e sincera conversão.

 

Que Deus nos ajude!

 

   

(Luís Guilherme Santos da Rocha)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

1º Domingo do Tempo da Quaresma - Ano A

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 5, 35).


Caríssimos irmãos e irmãs, estamos adentrando a primeira semana do Tempo da Quaresma, e desde já a mãe Igreja nos convida por meio da liturgia a vislumbrar o que nos espera no final desse itinerário quaresmal, isto é, a vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte por meio de sua paixão, morte e ressurreição. Por isso, imbuídos pelo Espírito da liturgia somos convidados a nos interpelar juntamente com o apóstolo Paulo na carta aos romanos: “Quem nos separará do amor de Cristo? (5, 35). Por acaso seria a morte e o pecado?

É justo e necessário crermos que o amor de Deus por nós se fez criação, e o que fundamenta essa verdade se encontra justamente na primeira leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7), donde nos deparamos com o relato de que Deus formou o homem do barro e soprou em sua narina, a fim de demonstrar a beleza de seu ato criador. Todavia, Adão e Eva, nossos primeiros pais, ao serem tentados pela serpente no Éden, desejosos de conhecer o bem e o mal, e de abrirem os olhos, ou seja, serem como Deus; desobedeceram a ordem do Criador e comeram do fruto da árvore cuja proibição era bem clara: “Não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário, morrereis” (Gn 3, 3).

No evangelho (Mt 4, 1-11), paralelamente à primeira leitura, temos a narrativa das três tentações de Jesus no deserto, que em sentido figurado e interpretativo podem ser subentendidas na perspectiva da “fome”.

Na primeira tentação, satanás tenta Jesus mediante a fome de alimento: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!” (Mt 4, 3). Na segunda, satanás tenta o Filho de Deus pela fome de reconhecimento: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (v. 6). E por fim, na última tentação, satanás tenta Jesus a partir da fome de glória: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (v. 9).

Reparemos, portanto, que os três modos de “fome” (tentação) no paraíso terrestre foram aceitos por Adão e Eva, isto é, eles comeram do mal fruto. Em contrapartida, no deserto, Jesus, o Filho de Deus, não somente abstém a sua fome, mas negou todas tentações com respostas claras e precisas: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”; Não tentarás o Senhor teu Deus!”; “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto” (Mt 4, 4.7.10). 

As mesmas tentações de Adão, Eva e de Jesus são as nossas. Somos tentados constantemente, e às vezes não damos conta disto. Temos tudo e ainda reclamamos, nos tornando ingratos diante da providência divina, como por exemplo, a reclamação que às vezes fazemos ante o alimento que temos em nossas mesas; e ainda, por egoísmo, não sabemos sequer repartir o pão com aqueles que não o possuem. De igual modo, em tais momentos buscamos o reconhecimento e achamos que somos conhecedores do bem e do mal, por isso pensamos que não dependemos de Deus para discernir qual caminho seguir ou que decisão tomar. E, erroneamente sempre buscamos a glória, visto que acreditamos que somos deuses, e por isso os outros devem nos "adorar" e nos agradar para que realmente nos sintamos bem.

Não há dúvidas de que as tentações são perceptíveis e bem presentes em nossa vida. Infelizmente vivemos em uma sociedade marcada por uma falta de equilíbrio e por um excesso de carência afetiva. Quantos não matam por dependência afetiva e psicológica, se não por morte fisíca, mas por palavras ofensivas, como salientou a poucos dias o Papa Leão XIV na Missa de quarta-feira de cinzas em Roma. E um outro mal que enfrentamos é o indiferentismo; muitos estão ao nosso lado, porém, estamos ao lado de muito poucos.

Queridos irmãos e irmãs, ao contrário de Adão e Eva, o Filho de Deus respondeu todas as tentações de satanás com argumentos válidos e concientes que comprovam a sua missão salvífica. Ele veio para salvar a todos, pois não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez 33, 11). Além disso, as respostas de Cristo nos leva a refletir e ainda concluir que Adão e Eva tiveram: fome de alimento, por isso comeram do fruto proibido; fome de reconhecimento, uma vez que queriam conhecer o bem e o mal; e fome de glória, porque queriam tornar-se deuses.

Nessa liturgia quaresmal, a “fome” para nós se traduz em maneiras de pecado, que de acordo com o salmista o pecado está sempre à nossa frente (Sl 50, 5), ou melhor, diante de nossos olhos.

Paradoxalmente, conhecemos bem o pecado e mesmo tendo o conhecimento de suas raizes e de suas severas consequências, o cometemos sempre. Mas, por que pecamos? Por que somos tão fracos assim diante do mal que nos tenta?

A segunda leitura (Rm 5, 12-19) nos apresenta que pecamos sempre pela desobediência, uma vez que pela desobediência de um só homem a humanidade inteira foi acometida pelo pecado, mas foi pela obediência de outro homem que a humanidade encontrou a justiça (Rm 5, 19). Diante dessa verdade observamos que pecar, além da desobediência, consiste em não amar a Deus, ou seja, não corresponder ao seu amor criador e salvador. Porém, o pecado também possui uma relação estrutural e social, porque fere a nossa comunhão com o outro. Nesta conjuntura, devemos nos interrogar  Será que mesmo sendo pecadores, poderemos ainda ser audaciosos em nos questionar: “Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 5, 35).

Caríssimos, nada e nem ninguém poderá nos separar do amor de Cristo: “pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 5, 38-39). E, apesar de termos o pecado sempre à frente (Sl 50, 5), devemos possuir a absoluta certeza de que não fomos criados para ele, mas para vivermos na graça de Deus.

O fato da graça ser divina, torna-se ela mesma um dom gratuito e abundante dado a todos nós, a ponto de nos justificar (Rm 5, 15-16), pois é ela que, segundo a nova perspectiva paulina, nos faz participantes da aliança consumada na cruz de Cristo, e ainda nos torna capazes de vencer a morte e o pecado mediante a fé no Filho de Deus.

Que nesse Tempo sacrossanto reconhecemo-nos pecadores, e peçamos dia após dia uma conversão sincera por meio da única certeza que temos, isto é, a misericórdia de Deus, para assim rezarmos com o salmista: “Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa!” (Sl 50, 4).


Que Deus nos ajude!


                                 (Luís Guilherme Santos da Rocha)

4º Domingo do Tempo da Quaresma – Ano A

  “Pois em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 35, 10).   Caríssimos irmãos e irmãs, somos introduzidos na qu...